— Pode me ouvir, filho? — a voz dele ressonou em meus ouvidos.
— Sim, pai — eu não sabia como, mas tinha certeza da voz que falava comigo.
— Você sabe que nunca esteve sozinho, não é? — estava muito escuro para vê-lo.
— Sempre soube — e um sorriso sincero brotou em meus lábios.
Fiquei feliz. Não sabia porque, mas fiquei. Ouvir aquelas palavras, vindas de meu pai... não tinha preço.
E então me acordaram.
— Davion — ouvi a voz — Davion, pode me ouvir?
— Meu pai estava falando comigo... — eu não abrira os olhos ainda, mas o sorriso estampado em meu rosto com certeza indicaria a quem quer que estivesse por perto que eu estava bem.
— O que? — perguntou a voz. Maerot.
— Sim, pai — eu não sabia como, mas tinha certeza da voz que falava comigo.
— Você sabe que nunca esteve sozinho, não é? — estava muito escuro para vê-lo.
— Sempre soube — e um sorriso sincero brotou em meus lábios.
Fiquei feliz. Não sabia porque, mas fiquei. Ouvir aquelas palavras, vindas de meu pai... não tinha preço.
E então me acordaram.
— Davion — ouvi a voz — Davion, pode me ouvir?
— Meu pai estava falando comigo... — eu não abrira os olhos ainda, mas o sorriso estampado em meu rosto com certeza indicaria a quem quer que estivesse por perto que eu estava bem.
— O que? — perguntou a voz. Maerot.
— Meu pai, ele... — será que tudo fora apenas delírio? — Ele estava falando comigo.
— Você dormiu por três dias seguidos — falou a voz. — É normal que tenha sonhado.
Não, pensei, era real.
Finalmente abri os olhos. Eu estava em uma caverna iluminada por pequenos lampiões, pendurados por toda extensão das paredes rochosas. Ao meu lado estava Maerot e duas mulhere altas, loiras, usando vestidos brancos.
— Bem-vindo de volta, Dave — disse Maerot, e sorriu.
Estava usando uma túnica branca, semelhante a das mulheres logo atrás com excessão do capuz, que escondia parcialmente o rosto delas.
— Eu... não... — estava muito difícil lembrar o que havia acontecido. — Pode me dizer o que aconteceu? Não consigo me lembrar de nada...
Maerot olhou para trás, como se procurando alguma orientação. Elas apenas acenaram com a cabeça, positivamente.
— Bom — começou. — A três dias atrás estávamos subindo a encosta oriental de Éveras quando uma forte nevasca baixou sobre nós. Felizmente fomos salvos por estas duas sacerdotisas do santuário, que amainaram a tempestade.
— ...Lianna! — lembrei, de súbito. Pulei da cama mas Maerot me segurou, firme.
— Acalme-se, ela está bem. Você conseguiu protegê-la, de alguma forma — explicou. — Muito obrigado, Dave — falou tão baixo que quase não pude ouvir.
Olhei para ele; Maerot era o tipo de homem que não admitia estar errado, talvez se passasse até por uma pessoa ingrata. Tudo o que falava era dito em um tom pomposo, muitas vezes confundido com orgulhoso, o que conferia a ele uma imagem forte, autoritária; sempre passando um ar de confiança. Por isso me soou estranha a gratidão e a suavidade em sua voz. Eu não soube o que dizer, a princípio.
— Não foi nada... — respondi, enfim, mesmo não sabendo o que tinha feito para mantê-la a salvo.
Maerot olhou para os lados, abriu os braços, como se para quebrar o gelo, e disse, retomando a força em sua voz:
— Você dormiu por três dias seguidos — falou a voz. — É normal que tenha sonhado.
Não, pensei, era real.
Finalmente abri os olhos. Eu estava em uma caverna iluminada por pequenos lampiões, pendurados por toda extensão das paredes rochosas. Ao meu lado estava Maerot e duas mulhere altas, loiras, usando vestidos brancos.
— Bem-vindo de volta, Dave — disse Maerot, e sorriu.
Estava usando uma túnica branca, semelhante a das mulheres logo atrás com excessão do capuz, que escondia parcialmente o rosto delas.
— Eu... não... — estava muito difícil lembrar o que havia acontecido. — Pode me dizer o que aconteceu? Não consigo me lembrar de nada...
Maerot olhou para trás, como se procurando alguma orientação. Elas apenas acenaram com a cabeça, positivamente.
— Bom — começou. — A três dias atrás estávamos subindo a encosta oriental de Éveras quando uma forte nevasca baixou sobre nós. Felizmente fomos salvos por estas duas sacerdotisas do santuário, que amainaram a tempestade.
— ...Lianna! — lembrei, de súbito. Pulei da cama mas Maerot me segurou, firme.
— Acalme-se, ela está bem. Você conseguiu protegê-la, de alguma forma — explicou. — Muito obrigado, Dave — falou tão baixo que quase não pude ouvir.
Olhei para ele; Maerot era o tipo de homem que não admitia estar errado, talvez se passasse até por uma pessoa ingrata. Tudo o que falava era dito em um tom pomposo, muitas vezes confundido com orgulhoso, o que conferia a ele uma imagem forte, autoritária; sempre passando um ar de confiança. Por isso me soou estranha a gratidão e a suavidade em sua voz. Eu não soube o que dizer, a princípio.
— Não foi nada... — respondi, enfim, mesmo não sabendo o que tinha feito para mantê-la a salvo.
Maerot olhou para os lados, abriu os braços, como se para quebrar o gelo, e disse, retomando a força em sua voz:
— Bom, não há tempo a perder! — esfregou as mãos freneticamente. — Vamos, você tem que falar com Zettus.
— Zettus? — perguntei.
— É o nosso anfitrião. O senhor desta montanha — respondeu Maerot. Estava, de certa forma, eufórico. — Vamos.
Levantei da cama — um amontoado de palhas coberto por um pano — e senti dor. A principio foi um desconforto nas extremidades do meu corpo, mas em pouco tempo cresceu e se tornou forte a ponto de incomodar. Não me queixei, apesar de tudo. Apenas segui Maerot que, por sua vez, seguia as duas mulheres.
Por um momento fiquei preocupado com minhas coisas, como a espada que Darokk me dera... Darokk!, caiu a ficha.
— Maerot — chamei. — Onde está Darokk?
— Ele está conversando com Zettus — explicou. — Não se preocupe, Dave. Está tudo em ordem — disse. E, como se tivesse lido meus pensamentos, continuou. — E seus pertences também, não se preocupe. Vamos.
Seguimos por uma entrada lateral, esculpida na rocha. Era tudo muito simples, mas sofisticado e muito bem trabalhado. Subimos uma longa escadaria, pelo que pareceu uma eternidade, até gotas de suor se formarem em minha testa. Diferente do que imaginei, o santuário não era uma cidade propriamente dita, mas sim um labirinto intrincado, conectado por túneis estreitos, iluminados de forma precaria. De fato, nem o frio que esperei ser característico daquela montanha congelada estava presente. Nevava muito lá fora, mas lá dentro era abafado como um forno gigante. Não era exatamente quente, mas qualquer esforço que não fosse respirar já era suficiente para fazer escorrer pequenos filetes de suor. Isso apenas em mim e em Maerot, claro, pois mesmo apesar dos esforços, nada parecia abalar aquelas duas mulheres. Com suas expressões graves e soturnas, elas avançavam sem demonstrar qualquer sinal de cansaço ou qualquer sinal de transpiração. Tampouco interagiam com nós, ou entre elas mesmas. Apenas avançavam pelo labirinto como se cada uma daquelas paredes repetitivas fosse uma conhecida íntima.
— Zettus? — perguntei.
— É o nosso anfitrião. O senhor desta montanha — respondeu Maerot. Estava, de certa forma, eufórico. — Vamos.
Levantei da cama — um amontoado de palhas coberto por um pano — e senti dor. A principio foi um desconforto nas extremidades do meu corpo, mas em pouco tempo cresceu e se tornou forte a ponto de incomodar. Não me queixei, apesar de tudo. Apenas segui Maerot que, por sua vez, seguia as duas mulheres.
Por um momento fiquei preocupado com minhas coisas, como a espada que Darokk me dera... Darokk!, caiu a ficha.
— Maerot — chamei. — Onde está Darokk?
— Ele está conversando com Zettus — explicou. — Não se preocupe, Dave. Está tudo em ordem — disse. E, como se tivesse lido meus pensamentos, continuou. — E seus pertences também, não se preocupe. Vamos.
Seguimos por uma entrada lateral, esculpida na rocha. Era tudo muito simples, mas sofisticado e muito bem trabalhado. Subimos uma longa escadaria, pelo que pareceu uma eternidade, até gotas de suor se formarem em minha testa. Diferente do que imaginei, o santuário não era uma cidade propriamente dita, mas sim um labirinto intrincado, conectado por túneis estreitos, iluminados de forma precaria. De fato, nem o frio que esperei ser característico daquela montanha congelada estava presente. Nevava muito lá fora, mas lá dentro era abafado como um forno gigante. Não era exatamente quente, mas qualquer esforço que não fosse respirar já era suficiente para fazer escorrer pequenos filetes de suor. Isso apenas em mim e em Maerot, claro, pois mesmo apesar dos esforços, nada parecia abalar aquelas duas mulheres. Com suas expressões graves e soturnas, elas avançavam sem demonstrar qualquer sinal de cansaço ou qualquer sinal de transpiração. Tampouco interagiam com nós, ou entre elas mesmas. Apenas avançavam pelo labirinto como se cada uma daquelas paredes repetitivas fosse uma conhecida íntima.
Finalmente atingimos um corredor maior que os outros. Esse talvez pudesse comportar três pessoas lado a lado. No final dele havia uma porta dupla, azul, com um aspecto brilhante. Ao nos aproximar, percebi pequenos cristais de gelo pendurados.
As duas mulheres fizeram uma pequena reverencia com a cabeça antes de empurrar as portas. E entraram.
Não sei o que eu estava esperando ou se, de fato, esperava algo, mas fui surpreendido, de qualquer forma.
Adentrei em uma sala oval, azulada pela fina camada de gelo que cobria o chão e o teto. As estalactites e estalagmites congeladas delimitavam um pequeno corredor de culminava em uma plataforma elevada composta por alguns degraus a qual um cadeirão, muito similar a um trono, coroava seu topo de forma triunfante. Havia um homem sentado nele. Sua expressão séria pareceu fazer o ar ficar mais frio a medida que nos aproximávamos. Apesar disso não estava frio. Pelo menos não para mim.
— Mestre — disse uma das mulheres. Fora a primeira vez no dia em que não eu ou Maerot falava. — Trouxemos Maerot e o garoto — garoto, pensei, como se você fosse muito mais velha. De fato, nenhuma das duas parecia ter mais do que vinte anos. Talvez até menos.
As duas mulheres fizeram uma pequena reverencia com a cabeça antes de empurrar as portas. E entraram.
Não sei o que eu estava esperando ou se, de fato, esperava algo, mas fui surpreendido, de qualquer forma.
Adentrei em uma sala oval, azulada pela fina camada de gelo que cobria o chão e o teto. As estalactites e estalagmites congeladas delimitavam um pequeno corredor de culminava em uma plataforma elevada composta por alguns degraus a qual um cadeirão, muito similar a um trono, coroava seu topo de forma triunfante. Havia um homem sentado nele. Sua expressão séria pareceu fazer o ar ficar mais frio a medida que nos aproximávamos. Apesar disso não estava frio. Pelo menos não para mim.
— Mestre — disse uma das mulheres. Fora a primeira vez no dia em que não eu ou Maerot falava. — Trouxemos Maerot e o garoto — garoto, pensei, como se você fosse muito mais velha. De fato, nenhuma das duas parecia ter mais do que vinte anos. Talvez até menos.
O homem nos observou, calmo. Levou um bom tempo nos analisando, estudando cada traço com aqueles olhos dourados perspicazes. Dourados, sim. E tampouco eram pupilas normais; eram como olhos de gato ou de algum réptil, abertos na vertical. Por um bom tempo esperei que ele falasse algo, mas ele apenas observava. Me senti desconfortável sob a mira daquelas fendas de ouro derretido, que pareciam ver através de mim, olhando diretamente para a minha... alma.
— Davion — disse, imponente. — E Maerot. — completou. —Finalmente nos reunimos — ele se levantou do cadeirão e desceu o pequeno lance de degraus. Cada movimento parecia majestoso, como se previamente calculado, fazendo com que cada passo, cada gesto de mãos ou mexida de olhos parecesse um ato teatral, dramático. — Conseguem sentir? Os pilares da realidade, os fluxos do destino estão se alterando aqui, hoje, enquanto falo. Bem-vindos.
— Zettus — disse Maerot, com uma leve reverência. O anfitrião curvou a cabeça, também, saudando Maerot.
Ele se virou para mim e estendeu a mão.
— É assim que seu povo costuma se cumprimentar, não? — acenei com a cabeça em afirmativo. Senti a mão fria de meu anfitrião quando estendi a minha, como se a própria morte fosse dona dela e estivesse fechando um acordo comigo.
Abri a boca para falar algo, mas não tinha realmente algo que eu quisesse dizer. Por favor, me mande para casa não era exatamente o tipo de coisa certa para aquela ocasião. Talvez mais tarde. Zettus andou de volta para seu cadeirão e sentou. Parecia não ter pressa alguma. Na verdade, parecia não ter sentimento algum, ao todo. Seu rosto era uma máscara impenetrável e imutável, conservando aquela expressão inteligente e investigadora.
— Por favor, sentem-se — ele gesticulou para duas cadeiras de cristal logo atrás de nós que, a principio, não estavam lá. Não questionei o fato; aprendera que neste estranho mundo era mais fácil apenas aceitar, então me sentei. — Ótimo. Não vos falarei em rodeios. Creio que mesmo agora, o tempo nos é essencial — ele olhou para mim e eu mais uma vez apenas acenei com a cabeça, afirmativo. — Chegou a meu conhecimento que está em posse de um item muito... especial, sr. Davion. Correto? — aquiesci. — E tal artefato está contigo, sim? Mostre-me. — olhei para Maerot, buscando algum direcionamento, mas sua expressão dizia "vá em frente".
Puxei a camisa de linho para cima, revelando o calombo em meu peito. Estava ainda maior do que da última vez que eu o vira. Maerot e Zettus me observaram, como se eu fosse a atração de algum circo de horrores. A esfera não deixava de maravilhar meu amigo profeta. Zettus, por sua vez, prendeu a respiração por um momento. Olhou com um misto de espanto e admiração. Aparentemente, ele era capaz de expressar emoções.
— Oh, sim, eu vejo! Tantos mundos, tantos universos... está tudo aí!
— Ahn... O que está aí... senhor? — falei, confuso.
Então ele se controlou. Seu brilho cobiçoso nos olhos desapareceu e no lugar surgiu o mesmo olhar sério e carregado de antes.
— Perdão, criança. Me exaltei — falou, recobrando seu tom frio na voz. — Mas sim, é ela. É a esfera do devorador — concluiu.
— Então Barath não é apenas uma lenda, como todos acreditavam, afinal — disse Maerot dando um risinho sarcástico.
— Não, nunca foi. Eu mesmo lutei contra suas hordas, nos últimos anos — disse Zettus, distraído. Ele olhava para mim com mais intensidade, como se tivesse descoberto um enigma, uma charada sem resposta. — Quem é você, Davion? Por que você? Por que agora? — perguntou.
— Achei que iria descobrir as respostas aqui — respondi, displicente, dando de ombros.
Zettus riu. Uma gargalhada terrível, cavernosa, que encheu o salão de ecos. Ele me olhou com um ar descontraído. Decidi, naquele momento, que preferia a versão séria e observadora de Zettus. Era mil vezes menos aterrorizante do que qualquer outra de suas facetas.
— Oh, não, não! — e riu de novo. — Sou tão vítima do infeliz acaso que são as perguntas quanto você, Dave. Não sei mais do que aquilo que se apresenta diante dos meus olhos, neste momento — ele afagou o queixo, o último resquício de riso sumindo do canto de seus lábios. — Mas há, de fato, algo que posso fazer para descobrir. Me surpreende que não tenha descoberto nada com Maerot.
— O tempo não era favorável — respondeu o vidente, taciturno.
— Sim, sim, nunca nos é. Bom, Davion, aceita descobrir um pouco mais sobre si mesmo? — disse Zettus, esfregando as mãos.
Dei de ombros. Seria bom ter algumas respostas.
Nosso anfitrião mais uma vez desceu de seu trono e veio até mim. Repousou suas mãos em minhas têmporas e fechou os olhos.
— Não se preocupe com nada.
Por um momento achei que fosse tudo bobagem, papo de charlatão. Então senti como se uma descarga elétrica cruzasse meu cérebro. Um momento depois outra foi despejada sobre mim, e esta percorreu todo meu corpo, da ponta do dedão do pé até a raíz dos fios de cabelo. Não doeu, mas houve um angustiante momento de desconforto no qual lutei contra o impulso de saltar da cadeira e me afastar de Zettus.
Então ele se afastou, as mãos ainda no formato de concha, o qual repousara sobre minha cabeça.
— Você... você! Sim — disse, o rosto estampado pela surpresa. — Sim, agora tudo faz sentido.
Olhei para ele de forma inquisidora, mas ele nada respondeu de imediato. Ficou andando em círculo, as mãos jogadas para trás e a cabeça hora alta, mirando o teto, hora baixa, fitando o chão. Depois explodiu em mais uma gargalhada, que ribombou tão alto a ponto de fazer os pelos do meu braço eriçarem.
— Isso é engraçado! Uma ironia do destino ou um produto do acaso? — disse. — O que é você, afinal de contas?!
Virei a cabeça em direção à Maerot, mas ele apenas deu de ombros. Cheguei a conclusão de que pelo menos ali, naquela ocasião, o vidente não poderia me ajudar.
— Tudo bem, tudo bem — Zettus continuou. — A questão agora é: o que fazer com você?
Por um momento fingi não entender suas palavras. Um sorriso irônico brotou dos meus lábios e por um instante pensei que fosse brincadeira; pensamento que veio ao chão no momento em que olhei para ele e percebi que ele me olhava de volta, sério, como se esperasse uma sugestão minha.
— O que fazer comigo? — perguntei, indignado. — Não sou seu objeto! — gritei.
Um silêncio se seguiu depois do meu pequeno descontrole, um momento onde todos na sala pareceram prender a respiração. Foi como se todos, menos eu, soubessem o quanto minha reação havia sido perigosa. Zettus não esboçou expressão nenhuma, apesar de seus olhos faiscarem. Depois de alguns segundos, ele disse:
— Baixe sua voz enquanto estiver falando comigo, garoto — a voz soava fria e pesada como um bloco de gelo. — Não costumo tolerar displicência. Nunca se esqueça disso — uma corrente elétrica correu pela minha espinha e se espalhou pelo meu corpo, como aquela que me atravessara antes, mas muito diferente. Medo. O mais básico instinto de auto-preservação me dizendo que aquele homem era perigoso.
Me senti um completo idiota.
— Me desculpe, eu não sei o que deu em mim — falei. — Sei que grosseria não pode ser justificada, mas passei por problemas demais até agora e só quero ir para casa.
— Eu entendo, Dave — Zettus respondeu. — Mas também quero que entenda que sou seu aliado aqui. Algum dia você voltará para casa, não se preocupe — disse. Sua última frase pairou no ar por alguns intantes. — Bom, isto é tudo. Agora Lillien irá...
— O que? O que quer dizer com "isto é tudo"? — desta vez não elevei a voz ou tentei ser desrespeitoso, mas fui incapaz de esconder a indignação em cada palavra proferida. — Não vai me contar nada do que descobriu? Não vai me dizer quem eu sou? E o que quer dizer com treinamento?
— Davion, chegará uma hora em que todas as suas perguntas serão respondidas — disse, e desta vez foi condescendente com minha confusão. — Apenas uma tenho total certeza que cabe a nós, do Santuário, responder. E tenho certeza que Lillien lhe dará a resposta amanhã, durante seu treinamento — estava prestes a objetar, quando ele levantou a mão. — Treinamento este que se apresenta necessário, caso queira sobreviver neste mundo. Você possui um potencial incrível, Davion, e devemos desenvolvê-lo.
Potencial, pensei, rindo comigo mesmo. Você quer a esféra. Sim. Mas vai me distrair até que ela esteja pronta para sair de mim.
— Agora vá. Lillien o levará até a garota. Tenho certeza de que quer ver como ela está — e diante deste comentário, corei. Rezei a todos os deuses que conhecia para que ninguém notasse.
Darokk estava esperando do lado de fora da sala.
— Então? — perguntou.
Dei de ombros.
— Continuo um mistério, ao que parece — respondi. — Onde estava?!
Ele pareceu surpreso com a pergunta.
— Ora, estava apenas... explorando.
Fiz um meneio com a cabeça, seguido por um pequeno "hã". Maerot e Darokk seguiram uma das mulheres, enquanto a outra, Lillien, me conduziu por mais corredores.
— Nunca mais irrite o mestre em minha presença — ela disse, séria, enquanto andava. — Ou eu mesma acabo com você.
Senti o frio percorrer minha espinha mais uma vez. Em uma situação normal eu teria rido, mas havia algo naquela garota que parecia fazer meu sangue congelar. Por algum motivo, soube na hora que ela era extremamente perigosa. Igual ao mestre.
— Aqui — ela disse, apontado para uma abertura em arco.
Lianna estava sentada em frente a uma penteadeira, escovando os longos cabelos negros. Era a primeira vez que eu a via se arrumando, fazendo algo pela própria aparência. Ela era, naturalmente, a mulher mais linda que eu já vira na minha vida, mas mesmo sua beleza era descuidada; não se penteava, não se maquiava, não se vestia com os melhores vestidos e não se cobria com as jóias mais caras. Talvez a ausência de outras figuras femininas em sua vida tivesse criado essa negligência em relação a si mesma. Não que eu me importasse, claro. Ela parecia, de todos os ângulos possíveis, boa demais para mim
— Davion — disse, imponente. — E Maerot. — completou. —Finalmente nos reunimos — ele se levantou do cadeirão e desceu o pequeno lance de degraus. Cada movimento parecia majestoso, como se previamente calculado, fazendo com que cada passo, cada gesto de mãos ou mexida de olhos parecesse um ato teatral, dramático. — Conseguem sentir? Os pilares da realidade, os fluxos do destino estão se alterando aqui, hoje, enquanto falo. Bem-vindos.
— Zettus — disse Maerot, com uma leve reverência. O anfitrião curvou a cabeça, também, saudando Maerot.
Ele se virou para mim e estendeu a mão.
— É assim que seu povo costuma se cumprimentar, não? — acenei com a cabeça em afirmativo. Senti a mão fria de meu anfitrião quando estendi a minha, como se a própria morte fosse dona dela e estivesse fechando um acordo comigo.
Abri a boca para falar algo, mas não tinha realmente algo que eu quisesse dizer. Por favor, me mande para casa não era exatamente o tipo de coisa certa para aquela ocasião. Talvez mais tarde. Zettus andou de volta para seu cadeirão e sentou. Parecia não ter pressa alguma. Na verdade, parecia não ter sentimento algum, ao todo. Seu rosto era uma máscara impenetrável e imutável, conservando aquela expressão inteligente e investigadora.
— Por favor, sentem-se — ele gesticulou para duas cadeiras de cristal logo atrás de nós que, a principio, não estavam lá. Não questionei o fato; aprendera que neste estranho mundo era mais fácil apenas aceitar, então me sentei. — Ótimo. Não vos falarei em rodeios. Creio que mesmo agora, o tempo nos é essencial — ele olhou para mim e eu mais uma vez apenas acenei com a cabeça, afirmativo. — Chegou a meu conhecimento que está em posse de um item muito... especial, sr. Davion. Correto? — aquiesci. — E tal artefato está contigo, sim? Mostre-me. — olhei para Maerot, buscando algum direcionamento, mas sua expressão dizia "vá em frente".
Puxei a camisa de linho para cima, revelando o calombo em meu peito. Estava ainda maior do que da última vez que eu o vira. Maerot e Zettus me observaram, como se eu fosse a atração de algum circo de horrores. A esfera não deixava de maravilhar meu amigo profeta. Zettus, por sua vez, prendeu a respiração por um momento. Olhou com um misto de espanto e admiração. Aparentemente, ele era capaz de expressar emoções.
— Oh, sim, eu vejo! Tantos mundos, tantos universos... está tudo aí!
— Ahn... O que está aí... senhor? — falei, confuso.
Então ele se controlou. Seu brilho cobiçoso nos olhos desapareceu e no lugar surgiu o mesmo olhar sério e carregado de antes.
— Perdão, criança. Me exaltei — falou, recobrando seu tom frio na voz. — Mas sim, é ela. É a esfera do devorador — concluiu.
— Então Barath não é apenas uma lenda, como todos acreditavam, afinal — disse Maerot dando um risinho sarcástico.
— Não, nunca foi. Eu mesmo lutei contra suas hordas, nos últimos anos — disse Zettus, distraído. Ele olhava para mim com mais intensidade, como se tivesse descoberto um enigma, uma charada sem resposta. — Quem é você, Davion? Por que você? Por que agora? — perguntou.
— Achei que iria descobrir as respostas aqui — respondi, displicente, dando de ombros.
Zettus riu. Uma gargalhada terrível, cavernosa, que encheu o salão de ecos. Ele me olhou com um ar descontraído. Decidi, naquele momento, que preferia a versão séria e observadora de Zettus. Era mil vezes menos aterrorizante do que qualquer outra de suas facetas.
— Oh, não, não! — e riu de novo. — Sou tão vítima do infeliz acaso que são as perguntas quanto você, Dave. Não sei mais do que aquilo que se apresenta diante dos meus olhos, neste momento — ele afagou o queixo, o último resquício de riso sumindo do canto de seus lábios. — Mas há, de fato, algo que posso fazer para descobrir. Me surpreende que não tenha descoberto nada com Maerot.
— O tempo não era favorável — respondeu o vidente, taciturno.
— Sim, sim, nunca nos é. Bom, Davion, aceita descobrir um pouco mais sobre si mesmo? — disse Zettus, esfregando as mãos.
Dei de ombros. Seria bom ter algumas respostas.
Nosso anfitrião mais uma vez desceu de seu trono e veio até mim. Repousou suas mãos em minhas têmporas e fechou os olhos.
— Não se preocupe com nada.
Por um momento achei que fosse tudo bobagem, papo de charlatão. Então senti como se uma descarga elétrica cruzasse meu cérebro. Um momento depois outra foi despejada sobre mim, e esta percorreu todo meu corpo, da ponta do dedão do pé até a raíz dos fios de cabelo. Não doeu, mas houve um angustiante momento de desconforto no qual lutei contra o impulso de saltar da cadeira e me afastar de Zettus.
Então ele se afastou, as mãos ainda no formato de concha, o qual repousara sobre minha cabeça.
— Você... você! Sim — disse, o rosto estampado pela surpresa. — Sim, agora tudo faz sentido.
Olhei para ele de forma inquisidora, mas ele nada respondeu de imediato. Ficou andando em círculo, as mãos jogadas para trás e a cabeça hora alta, mirando o teto, hora baixa, fitando o chão. Depois explodiu em mais uma gargalhada, que ribombou tão alto a ponto de fazer os pelos do meu braço eriçarem.
— Isso é engraçado! Uma ironia do destino ou um produto do acaso? — disse. — O que é você, afinal de contas?!
Virei a cabeça em direção à Maerot, mas ele apenas deu de ombros. Cheguei a conclusão de que pelo menos ali, naquela ocasião, o vidente não poderia me ajudar.
— Tudo bem, tudo bem — Zettus continuou. — A questão agora é: o que fazer com você?
Por um momento fingi não entender suas palavras. Um sorriso irônico brotou dos meus lábios e por um instante pensei que fosse brincadeira; pensamento que veio ao chão no momento em que olhei para ele e percebi que ele me olhava de volta, sério, como se esperasse uma sugestão minha.
— O que fazer comigo? — perguntei, indignado. — Não sou seu objeto! — gritei.
Um silêncio se seguiu depois do meu pequeno descontrole, um momento onde todos na sala pareceram prender a respiração. Foi como se todos, menos eu, soubessem o quanto minha reação havia sido perigosa. Zettus não esboçou expressão nenhuma, apesar de seus olhos faiscarem. Depois de alguns segundos, ele disse:
— Baixe sua voz enquanto estiver falando comigo, garoto — a voz soava fria e pesada como um bloco de gelo. — Não costumo tolerar displicência. Nunca se esqueça disso — uma corrente elétrica correu pela minha espinha e se espalhou pelo meu corpo, como aquela que me atravessara antes, mas muito diferente. Medo. O mais básico instinto de auto-preservação me dizendo que aquele homem era perigoso.
Me senti um completo idiota.
— Me desculpe, eu não sei o que deu em mim — falei. — Sei que grosseria não pode ser justificada, mas passei por problemas demais até agora e só quero ir para casa.
— Eu entendo, Dave — Zettus respondeu. — Mas também quero que entenda que sou seu aliado aqui. Algum dia você voltará para casa, não se preocupe — disse. Sua última frase pairou no ar por alguns intantes. — Bom, isto é tudo. Agora Lillien irá...
— O que? O que quer dizer com "isto é tudo"? — desta vez não elevei a voz ou tentei ser desrespeitoso, mas fui incapaz de esconder a indignação em cada palavra proferida. — Não vai me contar nada do que descobriu? Não vai me dizer quem eu sou? E o que quer dizer com treinamento?
— Davion, chegará uma hora em que todas as suas perguntas serão respondidas — disse, e desta vez foi condescendente com minha confusão. — Apenas uma tenho total certeza que cabe a nós, do Santuário, responder. E tenho certeza que Lillien lhe dará a resposta amanhã, durante seu treinamento — estava prestes a objetar, quando ele levantou a mão. — Treinamento este que se apresenta necessário, caso queira sobreviver neste mundo. Você possui um potencial incrível, Davion, e devemos desenvolvê-lo.
Potencial, pensei, rindo comigo mesmo. Você quer a esféra. Sim. Mas vai me distrair até que ela esteja pronta para sair de mim.
— Agora vá. Lillien o levará até a garota. Tenho certeza de que quer ver como ela está — e diante deste comentário, corei. Rezei a todos os deuses que conhecia para que ninguém notasse.
Darokk estava esperando do lado de fora da sala.
— Então? — perguntou.
Dei de ombros.
— Continuo um mistério, ao que parece — respondi. — Onde estava?!
Ele pareceu surpreso com a pergunta.
— Ora, estava apenas... explorando.
Fiz um meneio com a cabeça, seguido por um pequeno "hã". Maerot e Darokk seguiram uma das mulheres, enquanto a outra, Lillien, me conduziu por mais corredores.
— Nunca mais irrite o mestre em minha presença — ela disse, séria, enquanto andava. — Ou eu mesma acabo com você.
Senti o frio percorrer minha espinha mais uma vez. Em uma situação normal eu teria rido, mas havia algo naquela garota que parecia fazer meu sangue congelar. Por algum motivo, soube na hora que ela era extremamente perigosa. Igual ao mestre.
— Aqui — ela disse, apontado para uma abertura em arco.
Lianna estava sentada em frente a uma penteadeira, escovando os longos cabelos negros. Era a primeira vez que eu a via se arrumando, fazendo algo pela própria aparência. Ela era, naturalmente, a mulher mais linda que eu já vira na minha vida, mas mesmo sua beleza era descuidada; não se penteava, não se maquiava, não se vestia com os melhores vestidos e não se cobria com as jóias mais caras. Talvez a ausência de outras figuras femininas em sua vida tivesse criado essa negligência em relação a si mesma. Não que eu me importasse, claro. Ela parecia, de todos os ângulos possíveis, boa demais para mim
Demorou um pouco, mas ela logo percebeu minha figura parada a alguns passos de distância, observando com surpresa estampada no rosto. Um sorriso brotou dos lábios dela. Lianna largou a escova e me abraçou.
— Dave, você está bem? — disse, olhando em meus olhos. Ah, aqueles olhos...
— Na medida do possível... — respondi, sorrindo.
— Obrigada — ela disse. — Você me salvou.
Levei algum tempo pra assimilar o que ela dizia.
— Ah, aquilo? Não foi nada... — respondi. Algumas perguntas continuavam sem resposta, claro, mas nada que pudesse me impedir de agir como se soubesse o que tinha acontecido naquele vale congelado. Você conseguiu protegê-la, de alguma forma, dissera Maerot. Gostaria de saber como.
Lianna então falou sobre como as garotas do Santuário estiveram a visitando nesses dias em que estive dormindo, trazendo pequenos presentes como espelhos, sapatos, roupas, brincos e colares. Havia, ela disse, uma espécie de fascinação por parte das garotas; para muitas, ela explicou, era a primeira vez que tinham contato com alguém de fora da montanha, de fora de sua realidade. Lianna logo se identificou com tal semelhança, pois vivera a vida inteira apenas com a presença do pai e dos esporádicos viajantes que iam em busca das predições de Maerot.
— Dave, você está bem? — disse, olhando em meus olhos. Ah, aqueles olhos...
— Na medida do possível... — respondi, sorrindo.
— Obrigada — ela disse. — Você me salvou.
Levei algum tempo pra assimilar o que ela dizia.
— Ah, aquilo? Não foi nada... — respondi. Algumas perguntas continuavam sem resposta, claro, mas nada que pudesse me impedir de agir como se soubesse o que tinha acontecido naquele vale congelado. Você conseguiu protegê-la, de alguma forma, dissera Maerot. Gostaria de saber como.
Lianna então falou sobre como as garotas do Santuário estiveram a visitando nesses dias em que estive dormindo, trazendo pequenos presentes como espelhos, sapatos, roupas, brincos e colares. Havia, ela disse, uma espécie de fascinação por parte das garotas; para muitas, ela explicou, era a primeira vez que tinham contato com alguém de fora da montanha, de fora de sua realidade. Lianna logo se identificou com tal semelhança, pois vivera a vida inteira apenas com a presença do pai e dos esporádicos viajantes que iam em busca das predições de Maerot.
— Algumas se sentem só — ela disse. — Mesmo com tantas outras, ainda é difícil achar alguém que as entenda e empatize. Eu sei como elas se sentem.
Então Lillien voltou ao cômodo. Trazia uma cesta de frutas para Lianna.
— Não precisava — disse Lianna, sorrindo e abraçando Lillien.
— Não tem problema — respondeu a loira, sorrindo de volta para Lianna com o máximo de simpatia que podia espremer de seu rosto sério. Então olhou para mim e fechou a cara novamente. — Vamos, vou te mostrar onde vai ficar.
Me despedi de Lianna e segui Lillien, mais uma vez sendo conduzido pela vastidão de túneis.
— Achei que iria ficar na caverna onde eu estava dormindo — comentei.
— Não seja tolo — ela respondeu. — Aquela era a enfermaria.
Enfim um quarto. Aquele que pelos próximos meses eu chamaria de meu. Um pequeno cômodo ocupado por uma cama à direita e uma escrivaninha à esquerda, com papel, tinta e pena em cima.
— Pro caso de querer fazer anotações pessoais — Lillien explicou, como se tivesse lido minha mente. — Bom, eis seu quarto. Tome — ela me deu um pequeno cristal azul. — Mantenha-o por perto, assim saberei sempre onde está. Também pode usá-lo para me chamar, basta batê-lo com força. Havia também uma porta que levava a um pequeno toalete. Havia uma banheira, uma bacia cheia de água, uma pilha de toalhas limpas e um espelho pendurado na parede. Então, sem mais nem menos, ela virou as costas e foi embora, batendo a porta atrás de si.
Me espreguicei. Estava sozinho. Sozinho, sem ninguém por perto, na plenitude da privacidade que aquela sala tinha a oferecer. E me senti... estranho. Era bom estar sozinho, mas algo me incomodava. Algo dentro da minha mente gritava em agonia. Algo que eu mantivera apenas pra mim. Uma dor interna. Talvez até mesmo fosse o catalisador daquele pequeno momento embaraçoso no salão de Zettus.
Me sentei em frente à escrivaninha e deixei o cristal de lado. Peguei a pena, mergulhei na tinta e, mesmo não sabendo o que escrever, direcionei sua ponta para o começo da folha. Sabia que tinha que escrever.
Jonas está morto.
Minha mão se moveu sozinha, dando forma às palavras no papel. Não foi algo pensado, foi apenas um reflexo. A morte de Jonas não era algo que estivesse completamente registrado em minha cabeça. Eu sabia disso, mas tinha dificuldade até mesmo de acreditar. Por dias a fio eu sofrera com a morte de Jonas, mas logo me obriguei a esquecer, pois fui empurrado de um lado para o outro naquele mundo estranho e hostil. Eu havia abandonado qualquer tipo de luto ou depressão que tivesse entrado apenas para me adaptar às adversidades que minha pequena 'aventura' me proporcionava; mas ali naquele quarto, diante de pena e papel, os sentimentos voltavam à mim pouco a pouco, pesados. Era difícil suportar.
Jonas está morto.
Uma lágrima borrou a última palavra e interrompeu minha mão. Quando me dei conta, estava no canto do quarto. Lágrimas desciam pelo meu rosto, mas eu não fazia barulho algum. Medo, raiva e ansiedade se misturando em mim como um coquetel, me fazendo tremer descontroladamente. Bati na parede com a mão fechada, sem força, sem firmeza alguma. Eu estava tão desolado que nem mesmo conseguia fazer meus músculos trabalharem.
Depois de um tempo, a porta se abriu e revelou Lianna, que me fitou, confusa. Ela ficou ali parada me observando, mas nenhuma palavra foi dita. Ela pareceu saber que o silêncio naquele momento era fundamental para ambos. Lianna se aproximou e se agachou ao meu lado, passando o braço sobre meus ombros. Seu toque me acalmou, de forma que a tremedeira passou quase que na mesma hora. Havia algo nela naquele momento, algo que fez meu pulso e meu coração desacerelarem, como se um freio houvesse sido acionado. Eu podia jurar que via uma aura ao redor do corpo dela, uma espécie de auréola azulada que a recobria, e julguei que eram apenas as lágrimas em meus olhos borrando minha visão. E então a sala mergulhou em um frágil silêncio. Até mesmo nossas respirações pareciam inaudíveis. Não pude deixar de pensar na gruta, quando era ela quem chorava e eu quem consolava e como aquilo se repetia com os papeis invertidos. Em ambos momentos nos encontrávamos frágeis, suscetíveis aos sentimentos fortes que nos alvejavam e em ambos momentos precisávamos de alguém. Para abraçar, para chorar no ombro, para que mostrasse que não estávamos sozinhos. Percebi naquele momento que eu estava me apaixonando por ela. Cada gesto, cada palavra, cada olhar. No começo eu sentira uma atração física por ela, uma atração comum a qualquer ser humano que é apresentado a alguma coisa bela, irresistível; eu quase não era capaz de suportar o desejo de beijá-la, de brincar com seu cabelo ou de tocar sua pele. Mas ali naquele quartinho, abraçado a ela, eu descobri mais que sua beleza física. Eu havia finalmente entendido que ela era para mim como um porto seguro, um farol em meio à tempestade; alguém que mantinha minha sanidade no lugar onde ela deveria ficar. Ela era perfeita.
— Dave... — ela finalmente falou, a voz doce em forma de sussurro. — Eu preciso ir, mas vim avisar que descendo o corredor há um salão. Apareça lá caso esteja com fome. — ela me deu um beijo na bochecha. Um que eu continuaria sentindo até o resto dos meus dias.
Então ela se levantou. Eu estava a segurando pela mão e tive receio de largar. Ela olhou para mim.
— Tudo bem — falei, e então larguei a mão dela. — Eu já apareço lá. Obrigado. Depois de ela ir embora, usei a camisa para limpar as lágrimas a melhor maneira possível. Meus olhos continuavam vermelhos. Olhei ao redor, esquadrinhando o quarto, e descobri que minhas coisas estavam no chão ao lado da cama. Meu par de tênis, minha mochila, e a espada, embainhada e encostada na parede; haveria tempo, mais tarde, para conferir o conteúdo da mochila. Fui até a bacia e joguei água no rosto e me sequei numa das toalhas imaculadamente brancas. Ainda estava vestindo o traje que me puseram: uma calça e uma camiseta, ambos de linho branco. Não vi problema nele, apesar do aspecto de roupa de hospital. Finalmente sai do quarto e desci o corredor. Havia uma grande porta dupla, e eu podia ouvir as vozes através dela. Tomei fôlego e o prendi. Então empurrei a porta.
— Não precisava — disse Lianna, sorrindo e abraçando Lillien.
— Não tem problema — respondeu a loira, sorrindo de volta para Lianna com o máximo de simpatia que podia espremer de seu rosto sério. Então olhou para mim e fechou a cara novamente. — Vamos, vou te mostrar onde vai ficar.
Me despedi de Lianna e segui Lillien, mais uma vez sendo conduzido pela vastidão de túneis.
— Achei que iria ficar na caverna onde eu estava dormindo — comentei.
— Não seja tolo — ela respondeu. — Aquela era a enfermaria.
Enfim um quarto. Aquele que pelos próximos meses eu chamaria de meu. Um pequeno cômodo ocupado por uma cama à direita e uma escrivaninha à esquerda, com papel, tinta e pena em cima.
— Pro caso de querer fazer anotações pessoais — Lillien explicou, como se tivesse lido minha mente. — Bom, eis seu quarto. Tome — ela me deu um pequeno cristal azul. — Mantenha-o por perto, assim saberei sempre onde está. Também pode usá-lo para me chamar, basta batê-lo com força. Havia também uma porta que levava a um pequeno toalete. Havia uma banheira, uma bacia cheia de água, uma pilha de toalhas limpas e um espelho pendurado na parede. Então, sem mais nem menos, ela virou as costas e foi embora, batendo a porta atrás de si.
Me espreguicei. Estava sozinho. Sozinho, sem ninguém por perto, na plenitude da privacidade que aquela sala tinha a oferecer. E me senti... estranho. Era bom estar sozinho, mas algo me incomodava. Algo dentro da minha mente gritava em agonia. Algo que eu mantivera apenas pra mim. Uma dor interna. Talvez até mesmo fosse o catalisador daquele pequeno momento embaraçoso no salão de Zettus.
Me sentei em frente à escrivaninha e deixei o cristal de lado. Peguei a pena, mergulhei na tinta e, mesmo não sabendo o que escrever, direcionei sua ponta para o começo da folha. Sabia que tinha que escrever.
Jonas está morto.
Minha mão se moveu sozinha, dando forma às palavras no papel. Não foi algo pensado, foi apenas um reflexo. A morte de Jonas não era algo que estivesse completamente registrado em minha cabeça. Eu sabia disso, mas tinha dificuldade até mesmo de acreditar. Por dias a fio eu sofrera com a morte de Jonas, mas logo me obriguei a esquecer, pois fui empurrado de um lado para o outro naquele mundo estranho e hostil. Eu havia abandonado qualquer tipo de luto ou depressão que tivesse entrado apenas para me adaptar às adversidades que minha pequena 'aventura' me proporcionava; mas ali naquele quarto, diante de pena e papel, os sentimentos voltavam à mim pouco a pouco, pesados. Era difícil suportar.
Jonas está morto.
Uma lágrima borrou a última palavra e interrompeu minha mão. Quando me dei conta, estava no canto do quarto. Lágrimas desciam pelo meu rosto, mas eu não fazia barulho algum. Medo, raiva e ansiedade se misturando em mim como um coquetel, me fazendo tremer descontroladamente. Bati na parede com a mão fechada, sem força, sem firmeza alguma. Eu estava tão desolado que nem mesmo conseguia fazer meus músculos trabalharem.
Depois de um tempo, a porta se abriu e revelou Lianna, que me fitou, confusa. Ela ficou ali parada me observando, mas nenhuma palavra foi dita. Ela pareceu saber que o silêncio naquele momento era fundamental para ambos. Lianna se aproximou e se agachou ao meu lado, passando o braço sobre meus ombros. Seu toque me acalmou, de forma que a tremedeira passou quase que na mesma hora. Havia algo nela naquele momento, algo que fez meu pulso e meu coração desacerelarem, como se um freio houvesse sido acionado. Eu podia jurar que via uma aura ao redor do corpo dela, uma espécie de auréola azulada que a recobria, e julguei que eram apenas as lágrimas em meus olhos borrando minha visão. E então a sala mergulhou em um frágil silêncio. Até mesmo nossas respirações pareciam inaudíveis. Não pude deixar de pensar na gruta, quando era ela quem chorava e eu quem consolava e como aquilo se repetia com os papeis invertidos. Em ambos momentos nos encontrávamos frágeis, suscetíveis aos sentimentos fortes que nos alvejavam e em ambos momentos precisávamos de alguém. Para abraçar, para chorar no ombro, para que mostrasse que não estávamos sozinhos. Percebi naquele momento que eu estava me apaixonando por ela. Cada gesto, cada palavra, cada olhar. No começo eu sentira uma atração física por ela, uma atração comum a qualquer ser humano que é apresentado a alguma coisa bela, irresistível; eu quase não era capaz de suportar o desejo de beijá-la, de brincar com seu cabelo ou de tocar sua pele. Mas ali naquele quartinho, abraçado a ela, eu descobri mais que sua beleza física. Eu havia finalmente entendido que ela era para mim como um porto seguro, um farol em meio à tempestade; alguém que mantinha minha sanidade no lugar onde ela deveria ficar. Ela era perfeita.
— Dave... — ela finalmente falou, a voz doce em forma de sussurro. — Eu preciso ir, mas vim avisar que descendo o corredor há um salão. Apareça lá caso esteja com fome. — ela me deu um beijo na bochecha. Um que eu continuaria sentindo até o resto dos meus dias.
Então ela se levantou. Eu estava a segurando pela mão e tive receio de largar. Ela olhou para mim.
— Tudo bem — falei, e então larguei a mão dela. — Eu já apareço lá. Obrigado. Depois de ela ir embora, usei a camisa para limpar as lágrimas a melhor maneira possível. Meus olhos continuavam vermelhos. Olhei ao redor, esquadrinhando o quarto, e descobri que minhas coisas estavam no chão ao lado da cama. Meu par de tênis, minha mochila, e a espada, embainhada e encostada na parede; haveria tempo, mais tarde, para conferir o conteúdo da mochila. Fui até a bacia e joguei água no rosto e me sequei numa das toalhas imaculadamente brancas. Ainda estava vestindo o traje que me puseram: uma calça e uma camiseta, ambos de linho branco. Não vi problema nele, apesar do aspecto de roupa de hospital. Finalmente sai do quarto e desci o corredor. Havia uma grande porta dupla, e eu podia ouvir as vozes através dela. Tomei fôlego e o prendi. Então empurrei a porta.
Olá,
ResponderExcluirAchei por acaso seu livro enquato procurava alguma fic que criasse uma história para "As Crôinicas da Balada do Dragão" =)
Dei uma lida rápida no último capitulo e achei muito incrível então com certeza lerei os outros também assim que puder ^_^
Parabéns =)