segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Capítulo 11 - Punição

Aziel estava transtornado. Não era Uthrin, seu desafeto; tampouco seu pai, seu maior algoz. Eram todos aqueles minúsculos corpos estirados no chão. Pequenos rostos com olhares assustados, fitando o nada. Uma fina chuva caía naquele crepúsculo maldito, mas mesmo assim alguns focos de incêndio ainda se mantinham vivos, como se fogueiras para guiar as almas daquelas pobres crianças através da noite eterna. Se ao menos a chuva pudesse nos lavar de nossos pecados, pensou. Eles não podem nem fechar os olhos. Então ele foi de corpo em corpo, passando seus dedos e fechando as pálpebras de cada criança morta. Encontrou uma pá em um barracão e começou a cavar um buraco. Alguns soldados olhavam para ele ao passar com os olhos pesados, graves; outros riam da cena e continuavam andando, procurando pilhagem nos resquícios daquele vilarejo.
     Não fora um combate. Não fora nem uma peleia. Fora um massacre brutal e desordenado, causado pela sede de sangue e vingança daqueles anões furiosos. Aziel adoraria dizer, anos mais tarde, que não tomara parte naquilo. Mas não era verdade. Em um momento estava marchando sobre a vila; seus companheiros derrubavam casas, ateavam fogo, matavam os homens e estupravam as mulheres, enquanto ele continuava alheio, andando apaticamente. Em outro, de puro reflexo, cruzava a espada contra a foice de um aldeão que saíra de seu casebre de madeira para proteger sua família. O homem não possuía treinamento, arma ou armadura adequada. Mas mesmo assim estava ali em pé, medindo forças contra Aziel.     O anão empurrou o homem para trás com um chute e preparou a espada para um golpe, mas algo fez seu braço vacilar em pleno ar. Era a visão daquela criança espiando pelo vão da porta, logo atrás do pai, com lágrimas escorrendo de seus olhos. Os cabelos desgrenhados e sujos caiam em cascatas sobre as laterais do rosto redondo e vermelho de tanto choro. O coração de Aziel deu um pulo no peito. De alguma forma aquela visão o lembrava de si mesmo mais novo, quando chorava pelo próprio pai.     Sentimentos são perigosos em uma batalha. Aziel sabia disso, mas não deixou de sentir uma tristeza enorme por aquela criança. E foi no momento em que seu braço vacilou que aquele pai atacou com sua foice. Com sorte, iria separar a cabeça de Aziel com um único golpe, poupando o do sofrimento. Se tivesse azar, a lâmina estaria enferrujada o suficiente para parar na metade do caminho, causando uma dor agonizante e morte por afogamento no próprio sangue. Mas Aziel não era sortudo. Era abençoado. Pois nenhum dos dois ocorreu; uma pesada espada de duas mãos rechaçou o ataque daquela foice. O contra-golpe não só parou o movimento como também mandou o homem cambaleando para trás. Foi nesse instante que a espada transpassou o peito daquele homem, fazendo espirrar sangue por toda parte. Inclusive no rosto da garotinha.
   Aziel ficou em estado de choque. Não porque nunca tivesse visto uma morte antes, mas por causa dela. Da menina.
— Você está bem? — falou a voz grossa do outro anão. Aziel estava com os olhos arregalados. Abriu e fechou a boca feito um peixe fora d'água, mas nenhum som saiu.
   A garotinha abriu a porta e saiu em disparada na direção do pai, que agonizava no chão com uma espada encravada nas entranhas. Ela gritava desesperada, enquanto lágrimas rolavam de seu rosto.
   O homem gorgolejou, cuspiu sangue e olhou para a filha. Começou a falar numa dialeto desconhecido por Aziel, foi interrompido por uma forte convulsão e então morreu.
   A criança gritava pelo pai. Chorava e esperneava, berrando em sua vozinha fina. Ele podia até imaginar o que ela dizia
 
"não morra, papai, por favor...". Ele descobriu naquele momento que preferia ter tido sua cabeça separada do corpo pela lâmina da foice a presenciar aquele momento terrível. Uma lágrima escorreu por seu rosto e se perdeu em sua barba. Seus pensamentos igualmente saiam em disparada mas se perdiam em sua mente. Ele estava paralisado. Talvez não fosse tão abençoado assim. — Venha cá — disse o outro anão, e puxou a criança pelo colarinho. Arrastou a até os fundos da casa, onde finalmente os gritos de desespero foram silenciados. Aziel não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Estava destroçado por dentro, inconsolável além da compreensão. Fora sua primeira campanha e logo percebera que não há glória, honra ou beleza na guerra, como cantam os bardos. Apenas dor e sofrimento. O outro anão retornou limpando o sangue na adaga em uma tira de pano. Retirou a espada do ventre do morto e, após também limpá-la, a embainhou. — Maldito filho da mãe — resmungou. — Achando que pode matar um dos nossos, hein? — e deu uma piscadela para Aziel.      Aziel respondeu um fraco 'obrigado', sem convicção, e desviou o olhar. Saiu andando sem rumo. Havia uma trilha de desgraça e destruição deixada para trás por seus companheiros. Pessoas mortas e casas incendiadas. Apenas um lugar mantinha sua total integridade: a taverna. Mas Aziel não tinha animo para ir lá e encarar seus semelhantes. Podia ouvir os gritos de excitação e as cantigas daqueles que já estavam bêbados e se sentiu enjoado. Por isso caminhou pela vila inteira, carregando nos braços todos aqueles pequenos corpos. Aziel os juntou abaixo de uma grande árvore que crescia logo na entrada oriental da vila. Lá cavou um buraco fundo e, com a gentileza de um pai, carregou cada criança para seu túmulo. Naquele ponto as lágrimas vertiam feito cascatas.     Depois de fechar o buraco, ele se sentou escorado na árvore. A fina chuva continuava a cair, se misturando às lagrimas e tornando seu rosto grudento. Ele fechou os olhos e se sentiu cansado. Se sentia cansado emocionalmente, como nunca antes, pois nunca tivera motivos para isso. — Aziel — chamou uma voz familiar. Era o mesmo anão que o salvara. — Você está bem?     Aziel demorou a responder. Limpou as lágrimas e olhou para o companheiro. Ele balançou a cabeça levemente. Queria gritar, espernear, xingar ou até mesmo vingar aquelas crianças, mas sabia que nada disso as traria de volta. — Ela precisava morrer? — Aziel finalmente falou, a voz embargada. — Foi melhor pra ela — respondeu o outro anão, sério. — Como pode dizer uma coisa dessas? Como pode?! — Aziel gritou a última frase. — Você não entende, Aziel — o anão de cabelos vermelhos falava, com a paciência de um pai que explica ao filho. — Se ela fosse capturada, seria vendida como escrava. Se escapasse, iria lentamente morrer de fome — explicou. — Se qualquer um além de nós a pegasse, ela seria estuprada até a morte. É isso que iria querer para ela, Aziel? Olhe para mim! Era isso?! Depois de encarar o companheiro de armas, Aziel baixou os olhos. Ele estava certo. — Eu não quero mais nada isso — falou. — Eu não quero tomar parte dessa loucura. Eu não sou um assassino, Thorig. E se eu continuar aqui, uma hora ou outra irei acabar matando alguém. — E se você não estiver aqui, conosco, quem irá morrer será você, Aziel. Você sabe como são nossas leis. Você será decapitado como um desertor. Ele nada respondeu. — Olhe, Aziel — disse Thorig, e havia sinceridade em suas palavras. — Pensar nessas coisas não vai ajudar a passar a dor — disse. — Não se importe com essas coisas. Não adianta nada — fez uma breve pausa. — Enquanto vivermos, enquanto tivermos o livre arbítrio, haverá guerra. Você é jovem ainda, tem uma vida inteira pela frente. Não faça besteira.    Aziel continuou em silêncio. O outro anão se virou e estava prestes a ir embora quando ele falou: — Thorig — chamou. Thorig se virou e olhou para Aziel. — Como você supera a dor? Como você a guarda dentro de si?      O anão ponderou as palavras antes de responder. — Perdi minha fé a muito tempo — respondeu.       E se foi noite a dentro. Você fala bem, Thorigg, pensou Aziel, mesmo sendo um assassino.
    O céu estava escuro quase que por completo. A chuva agora parara mas o solo estava úmido, enlameado. Depois de algum tempo sentado sob os galhos da árvore, Aziel decidiu que precisava de algo forte, uma bebida, ou não iria aguentar a própria dor lancinante que rasgava seu peito. Então se dirigiu à taverna, uma modesta construção de madeira, de dois andares, cujas vigas e paredes descascadas contrastavam um ar de abandono com um de agitação que as janelas iluminadas proporcionavam.
   Aziel empurrou a porta de madeira e entrou. Ninguém prestou atenção nele; estavam todos bêbados ou ocupados demais com estupros esporádicos. Ele evitou todos. Foi até o balcão e percebeu o dono da taverna, um homem alto e gordo, andando de um lado para o outro precedido por um anão carregando uma lança e acompanhando todos os movimentos do velho homem.
    
— Preciso de algo forte — disse Aziel. — Uma bebida forte.
 O homem olhou para seu vigia, e este apenas acenou positivamente com a cabeça. Então o atendente sumiu por uma porta e voltou logo em seguida, trazendo uma garrafa velha, empoeirada, coberta por teias de aranha. Limpou-a o melhor que pode num pano escuro e a serviu num copo de madeira. Ele estendeu apenas o copo, mas Aziel se adiantou e agarrou a garrafa junto. Lançou um olhar severo ao homem, que parecia indignado, e se virou. Encontrou uma mesa desocupada em um canto escuro e lá sentou. Bebeu e bebeu, virando doses generosas daquela bebida forte e ardida. Passou de alegre a bêbado, e, nesse estado, começou a resmungar feito um velho ranzinza e rabugento. — Malditos cães sarnentos — disse. — Malditos animais...
— Você parece não nutrir afeto por seus colegas — respondeu uma voz energética.
— Mas que diabos...? — Aziel virou o rosto e viu o rosto do outro, iluminado parcialmente por uma luz fantasmagórica. A aquela altura, estava bêbado o suficiente para ver dois rostos com traços disformes.
— Perdão — disse o homem. Estava sentado do outro lado da pequena mesa. Tinha um enorme alaúde repousando em seu colo e vez ou outra fazia uma corda ressonar.
— Como se atreve a falar comigo, cão? — respondeu Aziel, furioso pela interrupção.
— Peço perdão, senhor — respondeu. — Sou apenas um bardo a serviço dos nobres cavalheiros que solicitaram meus... serviços — e esboçou um sorriso.
— O que faz aqui? — perguntou o anão, ríspido. Não era um assassino, mas não pode resistir à vontade de socar aquela cara humana até amassar os dentes. A tristeza dera lugar à raiva, e a raiva se enraizara na forma de ódio. A tudo e a todos.
— Os outros cavalheiros ou estão muito bêbados ou muito ocupados para ouvir uma canção, por isso achei que o senhor, que parece ser o mais sóbrio desta taverna, gostaria de ouvir algo.
  Aziel resmungou alguma coisa ininteligível. Sóbrio?, pensou consigo mesmo. Sóbria será minha mão na sua cara, seu verme!. Olhou para o bardo de relance e tragou o resto de bebida que restava no copo.
  O homem esperou por uma resposta, mas nenhuma palavra veio de Aziel. Então ele fez uma mesura com a cabeça e estava prestes a se retirar quando Aziel tornou a falar.    
— Qual é o seu nome, bardo? — perguntou Aziel, enfim. Não gostara da intrusão do bardo, mas no fundo não queria estar sozinho. Queria que algo o distraísse dos pensamentos ruins.
— Alcairos — respondeu, e fez vibrar uma corda de seu alaúde. — Assim como o mar.
— Bom, Alcairos-como-o-mar — e riu consigo mesmo, debochando do rapaz. — Não sei se percebeu, mas nossos reinos estão em guerra. E isso faz de nós — e apontou para si mesmo e para o bardo. — Inimigos.
— Não hoje, senhor — disse o bardo, um pouco mais descontraído. — Hoje sou apenas um pobre escravo.
    Aziel riu consigo mesmo mais uma vez. Poderia matar aquele ser displicente, se quisesse, que nenhum dos outros anões da taverna iria levantar a voz. Ou sequer notar. Mas decidiu não fazê-lo. Não era um anão cruel e não era um assassino, como volta e meia se pegava dizendo a si mesmo. Nunca fora. Além do mais, estava se divertindo com a conversa. Precisava da distração.
— Eu poderia matá-lo agora, pela sua insolência — a voz era calma, mas os olhos estavam descontraídos. Se o rapaz percebeu o blefe, não demonstrou.
— Estou ciente, mestre anão — apenas respondeu, sério.
     Aziel riu.
— Lorde Anão, humano — corrigiu.
— Lorde Anão — ecoou Alcairos. Ele se ajeitou em sua cadeira . — E então, gostaria de ouvir alguma música, senhor?
     Aziel ponderou sobre a pergunta. Havia um bom tempo que não ouvia uma boa balada.
— Bardo — ele disse, lentamente. O efeito da bebida agora havia baixado sobre sua cabeça feito um martelo numa bigorna, forte a ponto de fazê-lo enrolar a língua dentro da boca. — Você vai morrer de qualquer jeito. Então, qual o propósito disso? Por que ainda empunha seu instrumento? Alcairos franziu o cenho, como se tal pensamento já não houvesse cruzado sua mente. Ele de fato sabia que ia morrer, mas o porquê de ainda tocar, de ainda entreter aqueles que seriam seus carrascos, lhe era um mistério. — Bom, eu acho que... nada mais natural, não é mesmo? — falou, olhando para o chão. — Quer dizer, eu sou um bardo. Nada mais, nada menos. Eu amo a música — disse, dando tapinhas no alaúde. — Mas acho que mais que isso, se eu for morrer, quero morrer fazendo o que amo, aquilo que nasci para fazer. Aziel riu, o que deixou Alcairos confuso. Havia muito tempo desde que o anão estivera com alguém honesto e tão direto em suas respostas. — É, justo — disse, sorrindo. — Então, mostre me o que sabe fazer. Odiaria contrariar o último desejo de um homem condenado.
   O bardo esboçou um sorriso. Havia muito barulho na taverna, gemidos, risos, gritos, mas isso não era problema. Alcairos se ajustou na cadeira, tocou algumas notas no alaúde e limpou a garganta com um pigarro. A voz saiu cavernosa, rouca. Tinha um tom intenso, e mesmo assim não pecava na afinação.
Do sul ao norte
Nos campos vermelhos
De fogo e morte
Vagamos sem rumo
Sem destino
E sem sorte

Pagamos nossa dívida

Mas não enganamos
A profecia escrita

O devorador continua lá
Querendo nossa vida



   Aziel estava boquiaberto. Observava o barbo, embasbacado, enquanto ele terminava os últimos acordes. A voz era surpreendentemente assombrosa, absoluta em cada nota proferida. Cobrira totalmente todos os ruídos do ambiente feito uma manta cobrindo a luz de um lampião. Aziel então entendeu porque ele ainda estava vivo, entendeu os sentimentos que tal homem podia invocar sobre as pessoas. Podia até ver as cenas do provável cenário que se desenrolara durante sua captura: antes de ser assassinado o bardo cantou; provavelmente sua música mais triste, mais profunda, com o máximo de sentimentos que conseguiu extrair de si mesmo. Provavelmente deixara seus algozes confusos, tristes, mas acima de tudo com receio de matá-lo. Aziel logo percebeu que esta seria uma fabula muito bonita.
   Ele escondeu o espanto do rosto da melhor forma que pôde, mas mesmo assim enxergou o bardo sorrindo com o canto da boca.
— Impressionante — disse, sério.
— Muito obrigado, mas isto foi apenas um pouco menos da metade da primeira parte — disse Alcairos, fazendo uma mesura.
   Aziel ficou em silêncio por um instante. Generosamente empurrou a garrafa para Alcairos. — Beba comigo — disse, e Alcairos obedeceu, tomando um bom gole da bebida. Fez uma careta, que seria reconhecida e satirizada por seu velho pai, se este ainda estivesse vivo, e limpou a boca com a manga da camiseta. Não costumava beber, mas nunca recusava quando lhe era oferecido. Talvez fosse aquela insegurança, aquela vontade de agradar a todos, vinda dos distantes dias de sua infância, que o fazia agir do modo que agia, aceitando tudo que lhe era oferecido e fazendo tudo o que lhe pediam. A bebida é uma coisa engraçada, faz sua mente pular de forma brusca para um assunto totalmente aleatório.
— A vida não é justa, não é? — disse, observando seu copo.
— Perdão...?
— Nascemos, crescemos, vivemos. Alguns não nascem. Alguns não crescem. Alguns nunca vivem, realmente. E no final morremos. Perdemos coisas importantes para nós ao longo desse processo. Sorrimos e choramos.
— Não entendo aonde você quer chegar, Lorde A...
— Nos magoamos, nos ferimos, nos importamos — Aziel cortou o rapaz. — Nos cercamos de problemas, nossos e dos outros. E para quê, afinal de contas? A vida é injusta. Nunca nos sentimos felizes de verdade.
   Alcairos observou seu companheiro de mesa por um momento. Tinha o julgado a princípio como um anão ruim, igual aos outros, insensível e prepotente. Estava agora defronte a um lado mais...
humano de um ser de outra raça.
— A vida? — disse Alcairos, seguindo o dilema de seu companheiro. A bebida começara a agir e soltara sua língua. — Acho que a vida é muito como um alaúde, ou um instrumento de corda. Estamos sempre tocando nossa melodia. As vezes envolvemos os outros em nossa canção, as vezes nos envolvem também. Mas as vezes nossas vidas desafinam, e é quando tudo passa a dar errado. Vamos ao fundo do poço e muitas vezes não sabemos porquê. Realmente, nos cercamos de problemas — disse. — O que temos que fazer é afinar nossas vidas. Fazer com que todas as cordas soem em harmonia perfeita. Só então, quando nós estivermos afinados, é que poderemos ajudar outras pessoas a afinar suas próprias vidas — ele olhou para o próprio alaúde. — A felicidade é uma questão de saber qual corda está desafinada.
   Aziel se impressionou uma vez mais. Tomara seu companheiro bardo por um homem rústico, ignorante. Ele mesmo se considerava um anão inteligente, ao menos acima da média, e por isso subestimara Alcairos.
— Palavras bonitas, bardo — disse. — Acho que tive uma impressão errada de você.
— Ambos tivemos, Lorde Anão.
    E então as portas da taverna foram escancaradas. Uma nova comitiva de anões entrou, precedida por Uthrin. Alguns anões, os que ainda conseguiam se manter acordados, se viraram para olhar aquele imponente grupo.
— Chegamos muito tarde para a festa?! — gritou Uthrin, esquadrinhando a sala inteira a procura de rostos familiares. Encontrou um, num canto. Parou em frente à mesa de Aziel. — Achei que tivesse dito para não deixar sobreviventes.
  Aziel não olhou para Uthrin. Estava bêbado e não queria cometer deslizes.
— Levem-no para fora e o executem — por um momento, Aziel temeu por sua vida. Quando viu que foi Alcairos a ser puxado violentamente da cadeira onde estava sentado, por algum motivo seu nervosismo aumentou. Gostara do bardo e, em sua cabeça, já tinha muito sangue nas mãos.
— Tirem suas mãos imundas dele — Aziel se levantou. De início, não soube porque dissera aquilo, pois fora por impulso, mas entendeu que não conseguiria viver consigo mesmo se fosse cúmplice em mais uma morte que poderia ter sido evitada por ele.
    Uthrin olhou atentamente para o rosto de seu desafeto. Se aproximou até ficar a um palmo do rosto de Aziel.
— Nunca o julguei como um traidor — disse, calmamente. — Há! Aziel, defensor dos humanos! — todos na taverna desataram a rir. — Pois bem! Ambos irão morrer!
— Ele é meu escravo — interrompeu Aziel. — E você sabe muito bem o que nossas leis dizem sobre isso.
   Ambos ficaram se encarando em desafio mútuo, como se para ver quem seria idiota o suficiente para puxar sua espada primeiro. Longos minutos se arrastaram como lesmas, enquanto ambos os anões permaneciam determinados a continuar com aquilo pelo tempo que fosse preciso.
— Senhor... ele está certo... — veio uma voz do grupo de Uthrin.
— Foda-se se ele está certo ou não! — explodiu. Virou para trás, ver quem tivera tal ousadia de abrir a boca, mas não encontrou culpado. — Tudo bem, tudo bem, você ganhou dessa vez, Aziel. Mas cuidado, muito cuidado — então se virou definitivamente e foi embora. Num minuto a comitiva inteira desaparecera pelas portas do estabelecimento.
    Aziel desabou sobre a cadeira. Soltou a respiração que estivera prendendo e suspirou alto, fechando os olhos e massageando as têmporas.
— Obrigado por salvar minha vida — disse Alcairos. Se estava com medo, observou Aziel, conseguia disfarçar muito bem.
   O anão não respondeu. Simplesmente tornou mais um trago da bebida forte e recostou a cabeça na cadeira. Fechou os olhos e sentiu o mundo girar ao redor de si mesmo.
— Você agora é meu escravo — disse. — Empacote tudo o que achar necessário. Vamos cair na estrada em breve.

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