quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Capítulo 8 - A casa na floresta


— Eu posso ajudá-los? — havia uma garota no topo da escada. Ela trajava um simples vestido azul de mangas longas e tinha seu cabelo preso em um rabo-de-cavalo, preso por uma presilha prateada. Uma vestimenta simples. Ah, como ela era linda.
— Viemos falar com Maerot — pronunciou Darokk. — Eu sou Darokk e este é David. Ela nos avaliou por alguns segundos. — Ah, sim, vocês dois. Venham, meu pai os aguarda. Subimos os degraus e entramos na casa, passando pelas portas duplas de madeira e adentrando o hall de entrada. Não era muito mobiliado, apenas uma mesinha no centro, algumas pequenas estátuas de mármore espalhadas pelos cantos e uma escadaria à direita, que levava ao segundo andar. Era tudo muito limpo e organizado; eu podia até mesmo ver meu reflexo no chão. A garota fechou as portas e desapareceu por uma porta lateral. O anfitrião apareceu logo em seguida. Era um homem alto, calvo, de um rosto fino e alongado. Os olhos, castanhos, me fitaram, atentos, enquanto ele atravessava a sala para nos cumprimentar. Vestia uma túnica branca com adornos dourados e calçava simples sandálias de couro.
— Bem-vindo novamente, Darokk — disse o homem, apertando a mão de Darokk — É um prazer tê-lo de volta em minha casa.
— Muito obrigado, Maerot. O prazer é meu, amigo.
     Ele olhou para o lado e me estudou da cabeça aos pés.
— E vejo que trouxe companhia — disse. —Você também é bem-vindo em minha casa, David.
     Ele estendeu a mão para me cumprimentar e eu estava para fazer o mesmo, quando interrompi o ato assim que percebi que nunca o tinha visto na vida.
— Como sabe meu nome?
— Não me chamam de Oráculo por acaso — e piscou para mim. Ele estendeu a mão mais uma vez, e dessa vez eu o cumprimentei. — Meu nome é Maerot — e fez uma pequena reverência. — Mas conversaremos outra hora — ele pôs a mão em meu ombro. — Acredito que minha filha precise de ajuda para pegar água. Sabe, para o almoço. Por que não ajuda ela? Eu preciso discutir algumas coisas com Darokk, e tenho certeza que ela adoraria companhia para trazer os baldes.      E ali estava ela, logo atrás de Maerot, carregando dois baldes de madeira. Em nada se parecia com o pai.
— Claro... — concordei.
     Ela deu um passo a frente e me ofereceu um dos que estava carregando.
— Vamos — disse a garota, e saiu pelas portas duplas.
     Obediente, eu a segui. Ela desceu o pequeno lance de escadas e virou à esquerda, onde uma trilha parcialmente escondida pelos bambus começava. — Cuidado com eles — ela disse, apontando para os bambus. — Causam alergia a quem não é acostumado com seus pelos — balancei a cabeça, em sinal de compreensão. Por algum motivo, eu havia perdido a capacidade de formar frases. A garota ia na frente, andando calmamente com passos largos, cantarolando alguma música com sua voz calma e agradável. Não prestei muita atenção, pois estava ocupado me desviando de arbustos e cercas vivas. Deveria estar perto do meio dia quando atingimos uma parte onde a floresta começava a rarear.
— Chegamos — ela disse.
      Finalmente havíamos atingido uma parte onde não crescia vegetação além de pequenas flores e grama. Atrás dela corria um riacho de água muito límpida e clara, cuja água se movia calmamente. Um pequeno pedaço de paraíso onde até mesmo as cores pareciam ter uma tonalidade mais viva. A garota foi até a borda do riacho, se ajoelhou e pôs o balde de madeira na água. Dei alguns passos a frente e fiz o mesmo. O canto terminara.Olhei para o lado e percebi que ela estava sentada, com os pés na água e o vestido na altura dos joelhos. — É tudo tão tranquilo neste bosque — ela começou. — As vezes a vida aqui parece feita de sonhos. Uma vida de mentira...
     Ela olhou para mim, mas eu não respondi.
— Me desculpe. Acho que as vezes falo demais — e sorriu, um pouco constrangida pelo silencio.
     A garota continuou sentada, com as pernas na água. Parecia ignorar completamente o fato de que deveríamos voltar para sua casa. E eu continuei quieto. Não havia dirigido uma palavra sequer à ela, mas algo dizia que eu deveria quebrar aquele silêncio constrangedor que criei. Alguma coisa inteligente, mostrar a ela que eu sabia falar... rápido, qualquer coisa, pensei.
— Essa água parece bem fria — idiota!
       Ela apenas assentiu com um sorriso.
— Está mesmo.
        Ela pegou uma flor, a cheirou e brincou com suas pétalas, atirando no riacho as que eram arrancadas.
— Qual é o seu nome? — finalmente perguntei. Deixei o balde de lado e sentei na grama. Senti um leve aroma de flores ascender à medida em que uma pequena nuvem feita de pólen dançava, ao sabor do vento.
— Lianna — ela olhou pra mim e sorriu. — Mas pode me chamar de Lia, se quiser. David, não é?
  Assenti com a cabeça. Alguma coisa nela fazia eu me sentir um garoto, quando tive minha primeira paixão na escola. Eu não conseguia falar ou raciocinar direito. Era vergonhoso.
— Sabe, não é sempre que recebemos visitas — ela se virou e me encarou. Voltara a ter a mesma eloquência de alguns minutos atrás — Aqueles que vem até nossa casa estão sempre atrás das predições de meu pai. Você também está aqui por isso, não é? Para saber sobre o seu futuro.      Parei por um momento e finalmente consegui pensar. A pergunta era pertinente, mas eu não tinha resposta para ela. Tudo isso era ideia de Darokk, que acreditava que Maerot poderia me ajudar, mas eu não sabia mais em que acreditar. Eu apenas concordara com esta jornada porque não havia mais nada a ser feito e nenhum outro lugar para ir. Eu só queria voltar para casa.
— Sinceramente, não sei por que estou aqui — nada fazia sentido. Desde que eu chegara naquela terra, nada mais fazia sentido — Eu não sou daqui... quer dizer, desta dimensão, deste mundo...
— Eu sei o que quer dizer — ela jogou a haste sem folhas da flor no riacho. — Meu pai previu sua chegada.
  Fiquei em silêncio. Prever o futuro não era algo tão absurdo. Não era raro aparecer alguém alegando ser um vidente, em meu mundo. Raro era a pessoa acertar a previsão. — Você acredita nele? — perguntei. — Quer dizer, nos poderes dele?
     Foi a vez dela pensar um pouco. Ela parecia estar escolhendo as palavras certas para falar.
— Bom, ele... — mas ela não terminou a frase. Pudemos ouvir o barulho de gente se aproximando pela vegetação logo a frente de nós.
     Eram guerreiros, altos e barbudos, abrindo caminho através da mata densa por meio de golpes de suas espadas. Com olhares raivosos e expressões de selvageria, eles derrubaram a cerca viva violentamente. — Maldita floresta! — gritou um deles. Para ser mais exato, eles pareciam estar loucos: visivelmente apavorados por alguma coisa, eles ofegavam bastante, gritavam ao invés de falar e olhavam para todas as direções, como se esperassem que algo os atacasse. — Você viu aquela coisa lá atrás, Kokki? — os olhos do homem estavam arregalados. — Por Thrykka, era grande feito um mamute! — Silêncio — gritou o que estava a frente. — Acho que finalmente os encontramos! O da frente, aparentemente o líder, trajava uma armadura negra e trazia uma espada desembainhada na mão esquerda, enquanto os de trás vestiam apenas cotas de malha, carregavam espadas velhas embainhadas e empunhavam longos arcos de madeira.
— Você é David? — ele apontou a espada para mim.
Não respondi nada. Apenas me levantei e abanei a mão, sinalizando para que Lyanna ficasse atrás de mim.
— Responda! — gritou. Continuei em silêncio. — Kor
ik, Rekki, peguem a garota! Se o garoto não vai falar por bem, vamos fazer do modo difícil!
Mas nenhum dos dois se moveu. — O que estão esperando? Peguem-na! — gritou com mais força ainda. Korik e Rekki piscaram, confusos. Como se libertos de um transe, eles olharam para frente e nos perceberam. Pus a mão no cabo da minha espada, que pendia presa em sua bainha na lateral de meu corpo, e esperei pelo pior. Eu poderia ter corrido, mas o riacho era raso e, além disso, eles tinham arcos com flechas já encaixadas à corda.
   E então aconteceu, rápido como um raio. Eles só tiveram tempo de dar um passo em nossa direção, quando as lâminas brilharam. Voaram rápidas em direção às gargantas desprotegidas, e em uma fração de segundos cortaram carne e músculos, fazendo o sangue jorrar ao ritmo do coração acelerado e amedrontado dos guerreiros. O terceiro, aquele que falara comigo, olhou para trás e conseguiu, bem a tempo, desviar da adaga de Darokk. Ele contra-atacou o com um chute, empurrando Darokk para trás. O guerreiro então saiu em disparada pela margem do rio. Maerot fez menção de ir atrás dele, mas viu que não conseguiria alcançá-lo.
— Deixe-o ir... — ele arquejou, sentou no chão e respirou profundamente — Estou velho demais pra isso...
— Você está bem? — perguntou Darokk.
— Estou — respondeu Maerot, se pondo de pé. Ele estava tremulo. — Só estou... um pouco velho. Vai passar.
   Maerot se apoiou em Darokk. Os dois atravessaram o pequeno riacho. Eu desabei no chão. Estava tremendo tanto que não conseguia mais me mover. Ainda hoje sinto um frio na espinha toda vez que me lembro do ocorrido. Foi tudo tão rápido, tão real, tão cru que eu entrei em estado de choque.
— Você está bem, David? — perguntou Maerot. Ouvi a pergunta, mas meu cérebro não processou. — Dave, tudo bem?! — ele repetiu a pergunta. Dessa vez eu entendi. Fiz menção de responder, mas não consegui articular frase alguma; apenas grunhidos saiam de minha boca.
— Darokk, ajude-o a levantar. Acho que o garoto está em choque. Eu não estava mais em posse de mim mesmo. Era como se meu corpo estivesse trabalhando sozinho; levantei com a ajuda de Darokk e, em silêncio, voltamos todos ao templo. Por algum motivo, lágrimas rolaram face a baixo.
   Entramos pelas portas duplas e, seguindo Maerot, subimos o lance de escada na lateral direita do hall de entrada. Lyanna se separou de nós assim que entramos, atravessando uma porta à esquerda. Ela estava visivelmente abalada pelo acontecido no riacho, também. Darokk me conduziu até um quartinho mal-iluminado. Havia uma cama no canto, e lá dormi pelo que pareceu uma eternidade. Sonhei com sangue. Sonhei com homens sendo mortos e gargantas cortadas. O fato que mais me abalara neste episódio não havia sido o perigo à minha vida. Não. Foram aquelas duas mortes tão... reais.
Obviamente eu nunca havia visto algo assim antes. Criado como um garoto mimado na classe média e em uma outra realidade, literalmente, eu nunca presenciara uma vida sendo tirada de maneira tão fácil, tão leviana.  
Acordei com o ranger da porta sendo aberta. — Eu trouxe um pouco de comida, caso esteja com fome... — disse Lianna. — Obrigado — falei, apático. Ela permaneceu na soleira da porta, me olhando como se estivesse com pena de mim. Acho que ela queria falar algo, mas nada saiu. Foi quando ela estava saindo que resolvi falar. — Me desculpe — ela parou e se virou. — Eu... fui um covarde. — Dave, não! Não diga isso! Você não tem culpa de nada. Não se preocupe com isso. Fiquei em silêncio, mordendo o lábio e olhando em outra direção. — Quando estiver melhor — ela disse. — Darokk e Maerot estão te esperando no final do corredor. Ela sorriu e foi embora, me deixando sozinho naquele quarto mal iluminado por velas. Comi um pouco do queijo e mordisquei uma fruta. Estava com pouco apetite. Me levantei e sai do quarto. Senti tontura, mas andei cambaleante em direção à porta no fim do corredor. Ouvi os dois discutindo, mas não conseguia distinguir as palavras.
Hesitante, abri a porta e entrei. Estava em um cômodo escuro, cheirando a incenso. Havia um sofá, e, à frente dele, voltado para mim, uma grande cadeira vermelha com dois castiçais de velas brancas queimando ao lado. Entre os dois móveis havia uma pequena mesa de vidro. Senti a energia "sobrenatural" do lugar. Maerot, sentado no cadeirão vermelho me indicou o sofá, onde Darokk estava sentado, descontraído. — Melhorou, rapaz? — perguntou Maerot. — Minha cabeça ainda está latejando — respondi. Me sentei ao lado de Darokk
— Ótimo — Maerot encheu uma taça de vinho e me ofereceu. Bebi um pouco e senti o gosto forte da bebida. — Acho que podemos começar, então. — Darokk e eu assentimos com a cabeça, apesar de eu não saber o que começaríamos. — Vamos lá: o que você sabe, Dave? — perguntou Maerot.
—Perdão, o que? — fui pego de surpresa pela pergunta, que não fez sentido nenhum para mim.

— O que você sabe? — perguntou novamente Maerot, com um olhar enigmático e uma expressão indecifrável. — Sobre tudo o que aconteceu com você ultimamente.
Refleti por um momento antes de responder.
— Nada. Eu não sei... nada.
— Ótimo — respondeu Maerot. — Sua inocência pode ser sua melhor defesa — ele pegou a própria taça de vinho e deu um longo gole. — Bom, vou lhe contar apenas o que cabe a mim, David. Apenas o que você deve saber por enquanto. Para entender tudo, primeiro você tem que conhecer a história, uma que ocorreu a muito, muito tempo atrás, quando os dragões ainda eram os senhores supremos da terra e do ar e das águas. O reino dos homens era grande e próspero e todos eram felizes. Tudo começa com a invasão de Barath.
     "Ele liderava um exército gigantesco, capaz de obliterar mundos inteiros e, apesar de ainda não termos certeza, acredita-se que o proposito dele era destruir todo o tipo de vida de todos os mundos possíveis. Há quem diga que ele devora a energia dos mundos por onde ele passa, e, por isso, foi apelidado de Devorador. Mas houve um problema quando tentou vir para cá, e Barath não conseguiu trazer seu exército inteiro para a Galádia. Dizem que os próprios deuses se viraram contra Barath e quase conseguiram o impedir de invadir este mundo. Mas de qualquer forma, Barath veio e, mesmo com seu exército reduzido drásticamente, ele avançou. Marchou sobre a cidade de Flanor, que caiu em menos de dias perante o Devorador. Até aquele momento, ninguém tinha conhecimento de Barath, ou de suas intenções, por isso, um a um e desatentos, os reinos ao leste de Galádia caíram perante sua força esmagadora. Mas haviam duas famílias de Guerreiros Dragão naquela região. Os Farlane, ferozes dragões vermelhos, e os Reagan, os vorazes dragões marrons. Juntos, eles defenderam suas fortalezas e resistiram por um longo período de tempo. E então reza a lenda que chegaram os dragões brancos, os protetores de nosso mundo. Liderados por Zettus, eles rechaçaram o avanço de Barath e o fizeram recuar. A guerra se prolongou por dois anos até que um exército de dragões vermelhos e marrons, liderado por um jovem comandante chamado Darion Farlane, conseguiu a vitória decisiva no vale que hoje conhecemos como Vale dos Ossos. No final, Darion e Zettus enfrentaram Barath em combate. Quase foram mortos. Triunfaram por coincidência, talvez por sorte. Por séculos acreditou-se que que Barath estava morto mas, de alguma, ele está de volta. E quer sua esfera de volta.
      Agora ele está de volta. Seu exército não tem mais o poder de outrora, mas, mesmo assim, está sendo o suficiente para sobrepujar as forças ao leste da Galádia, novamente."
— Que história batida — falei. — Acho que li isso em "O Senhor dos Anéis".
     Maerot e Darokk se entreolharam, confusos com minha referência. O vidente apenas chacoalhou a cabeça, como alguém que não quer entender algo e perguntou:
— Você entende agora, Dave? — perguntou Maerot, os olhos fixos em mim.
— Entendo — respondi, olhando para o chão, medindo minhas palavras. — Só não estou entendendo o porque de você estar me contando isso.
     Ele me olhou, como se esperasse que eu já soubesse a resposta. Mas então percebeu que eu realmente não fazia ideia de onde ele queria chegar com aquilo, e então prosseguiu:
— Não é óbvio, Dave? Você tem a esfera e Barath a quer de volta.
— Não estou mais. Ela despareceu assim que cruzamos o portal.
— Aí é que você se engana, Dave — disse Maerot. — Aqui, ponha sua mão nesta parte — e apontou para onde ficava meu osso esterno.
Lancei um olhar confuso para Maerot, mas ele apenas acenou com a cabeça, me encorajando.
   Lentamente subi meu braço até a altura do peito e pus a mão sobre ele. A principio não senti nada, mas depois de algum tempo com a mão naquela posição, percebi um pequeno calombo logo acima do meu esterno. Achei, talvez, que fosse uma inflamação, uma espinha, mas logo percebi que estava enganado. Era muito grande para ser acne.
   Me pus de pé, aflito, e ergui a camisa de linho branca que eu estava usando. Olhei para baixo e percebi o calombo dourado, com o tamanho de uma pequena uva, no centro do meu peito.
   Olhei atônito para Maerot, que rebateu com um olhar despreocupado.
— Acalme-se, Dave, não há nada a temer. — disse — A esfera perdeu seu poder abrindo o portal e agora ela está se regenerando. Vai demorar algum tempo até ela sair de você. — E-eu vou morrer? — perguntei.
— Não, claro que não! Bom, se você fosse um humano comum estaria numa cama, paralisado.
Me sentei novamente, ao lado de Darokk, que assistia a tudo pacientemente. Consegui me acalmar e retomar a presença de espírito.
— Agora, a parte importante disso tudo — ele falou, e seu rosto assumiu um tom sombrio. — Não podemos deixar que a esfera caia nas mãos de Barath, ou será nosso fim.      Por um momento, não consegui responder.
— E o que tenho a ver com isso? — perguntei, displicente.
— Você tem que defender a esfera. Precisamos levá-la a um lugar seguro, um lugar onde ela possa...
— Não é problema meu — interrompi, sério.
— O que? — Maerot piscou, confuso.
— Não é problema meu — repeti, dando de ombros. — Não estou interessado na sua guerra. Eu só quero voltar pra casa — completei.
   Maerot ficou calado por um tempo. Me fitou, sério, e depois voltou o olhar para Darokk, que nada fez, exceto balançar a cabeça.
— Está entendendo o que estou dizendo? — ele perguntou. — Não, é claro que não está. Bom, deixe eu me fazer claro: agora, neste exato momento, há coisas te caçando. Humanos, animais, monstros. Há criaturas tão nefastas que fariam você enlouquecer assim que você pusesse os olhos nelas. Sua escolha é simples: salve a todos nós ou pereça sob as longas garras de Barath. Pensei por um momento. Realmente, o argumento era convincente.

— Irei levar a esfera para meu mundo, então — disse, dando de ombros.
— Não há tempo. A esféra precisa de tempo para recarregar suas energias. Você não viveria para ver a esfera criar outro portal — ele disse, sombrio.
  Senti o calafrio descer minha espinha e eriçar cada pelo de meu corpo. — E agora...? — falei baixo, para mim mesmo.
— Agora você nos ajuda a proteger a esfera e talvez você possa voltar a seu mundo.
   Respirei fundo, contrariado. Eu estava irritado por ter perdido o argumento e por ser envolvido em algo que eu não queria ter participação alguma.
    Olhei para Maerot.
—Tudo bem. Eu levo a maldita esfera — me senti cansado de novo, pois agora meu destino era outro: Éveras.