quarta-feira, 25 de junho de 2014

Capítulo 13 — Crepúsculo da Guerra

       Uma noite  estrelada de verão. Era assim que Darion se lembraria, anos mais tarde, daquela noite. Não uma noite qualquer, não. Havia algo diferente no ar, como se um leve aroma precedesse algo grande, que aconteceria em breve. E algo aconteceria, ele sabia disso. O cerco a Rardras tinha de cair. Mas não era isso. Ainda não era isso. O que Darion sentia era um presságio de desastre. Algo ainda muito mais importante que a cidade de Rardras e seus habitantes. Algo que tinha a ver com toda a criação.
    E ali, no parapeito da sacada, Darion sentiu claramente o outro enquanto ele se formava, absorvendo as sombras da noite em seu próprio ser para formar seu corpo.
— Saudações, Cavaleiro Dragão — disse a voz efêmera. — Longos sejam seus dias sob o sol de verão.
— Saudações, sombra — respondeu Farlane, em igual tom cordial. — Brilhante seja a lua que ilumina seus passos pela escuridão.
    O homem das sombras fez uma reverência diante das palavras. Darion apenas o observava com o canto do olho direito, sem deixar de encarar o horizonte escuro. As vestes do homem, notou o Cavaleiro, eram sombras. Sombras palpáveis, rodopiando lentamente como as névoas baixas de um pântano, girando em torno do corpo do homem para servi-lo de vestimenta. As formas escuras e dançantes eram um espetáculo por si só, hipnotizantes a olhos facilmente impressionáveis. Não os de Darion, claro. Estes se acostumaram ao passar dos séculos com coisas daquele tipo, e qualquer coisa que podia resumir o que ele sentia naquele momento era surpresa, não fascínio. Apesar de que aqueles olhos vermelhos abaixo do capuz fossem coisas curiosas. Era a primeira vez que via uma sombra com os olhos vermelhos.
— Venho por parte de meu criador pedir para que desista de quebrar o cerco — disse a sombra. A voz era fria como as brisas da noite que sopravam à aquela altura do chão.
— E qual o seu interesse, ou melhor, qual o interesse do seu criador em Rardras?
     A sombra riu. Ou ao menos pareceu isso a Darion. Era como o som de uma pedra amolando uma faca repetidas vezes.
— Rardras não tem importância nenhuma a ninguém, Cavaleiro — respondeu. — Deixe-a cair e meu senhor lhe concedera riquezas além da imaginação — foi a vez de Darion Farlane rir. Era um som seco, quase sem emoção, mas carregado de deboche.
— Riquezas? — perguntou. — Seria uma oferta interessante caso eu já não tivesse mais do que preciso para essa vida e outras. Não, vai ter que me oferecer algo melhor — e esboçou um sorriso de canto de boca. Nada podia comprar Darion Farlane. Pelo menos nada que fosse material. A sombra parecia não saber disso, pois disse:
— Podemos oferecer o que quiser, Cavaleiro.
— Podem oferecer a vida? — perguntou ríspido, sem rodeios, agora olhando diretamente para os olhos vermelhos da sombra. — Podem fazer os mortos levantarem de seus túmulos?
    A resposta foi algo que Darion esperava, mas que mesmo assim fez um arrepio eriçar os pelos de sua nuca.
— Sim — disse. — Podemos ressuscitá-los, se quiser. É um preço barato pela cidade e relativamente fácil —havia casualidade em sua voz, como se aquilo fosse feito todo dia. — Podemos trazê-los de volta, Darion. Podemos trazer Drey, Miria e até mesmo a pequela Alanna.  Que grande sacerdotisa do fogo ela seria, não é mesmo? Você apenas tem de renunciar seu posto.
   Darion controlou suas emoções da melhor forma que pôde, deixando a voz baixa e rígida.
— Você mente, cobra. Você mente como todos antes de você. Ninguém pode vencer a morte.
— Meu senhor pode. E ele vai — e então, a sombra deslizou para perto de Darion. Uma pequena parte de trevas se desprendeu de sua roupa e voou em direção ao Cavaleiro, como uma pena carregada pelo vento. Darion fechou as mãos em forma de concha e recebeu a pequena sombra.
     O mundo começou a ficar desbotado, perder o pouco de luz que tinha e mergulhar em trevas. Após algum tempo, uma voz chamou por Darion. Uma voz doce, infantil, que o remeteu a tempos antigos, onde tudo era luz, onde tudo era felicidade. E então  Farlane abriu os olhos e estava numa clareira. Uma luz laranja, etérea, brilhava para iluminar tudo ao redor. À frente dele estava a pequena dona da voz que o chamava. Alanna. A pequena Alanna, ainda em seu vestidinho rosa de aniversário, de quando fizera nove anos. Os cachos castanhos, quase loiros, quase louros,  como Darion sempre dizia a si mesmo, estavam separados em duas tranças que caiam até os ombros. Os olhos, verdes como os do próprio Darion, eram grandes e perceptivos, naquele momento suplicantes, como se dissessem rápido, por favor!. Ela segurava a mão dele e o puxava em direção à uma trilha. Darion podia ouvir seu próprio nome sair dos lábios da criança, mas além disso era tudo um zumbido incessante, irritante. Darion, Darion!, ele ouvia ela dizer e então seus lábios formavam a palavra Venha!, mas ele não conseguia ouvir. Por fim seguiu a garotinha. Andaram de mãos dadas, como pai e filha, por entre as árvores da trilha, sempre com aquele brilho alaranjado distorcendo as cores do mundo por onde quer que se olhasse.  Alanna seguia na frente, guindo o Cavaleiro.
     Ela não é real. Você sabe disso, não sabe?, disse uma voz grave no fundo da cabeça de Darion. Sei, velho amigo. Mas tudo isso parece diferente de alguma forma, respondeu.
   Chegaram a um rochedo, uma espécie de promontório que se elevava acima da mata atrás e muito acima do vale a frente. Um vale longo onde, em seu leito, um rio corria de forma vagarosa, quase preguiçosa, em direção à esquerda de Darion. Acima do rio, subindo a encosta do vale, havia uma cidade. Uma cidade de proporções gigantescas, de torres altas e castelos-fortaleza, de muros altos e ameias bem guardadas por soldados. Claro que Darion não enxergava os soldados, mas sabia que eles estavam lá. Pois aquela era Rardras. Ou Rardras-darin, a Velha Mãe como alguns, os mais antigos, costumavam chamá-la. Era uma cidade bela, grande, cheia de vida. Ou pelo menos era. Pelo menos fora daquela visão.
     Ali, naquele cume, Darion viu Rardras queimar. Viu pessoas correndo em direção ao rio pela encosta do vale e as viu serem cercadas por hordas de cavaleiros e guerreiros. Viu o massacre. Viu catapultas chegando pela crista do vale, lá em cima, e então atirando projéteis contra as torres e fortificações da cidade. Caos estava instalado.
      Então seus olhos passaram a enxergar mais longe, para a Torre do Mago, onde tanto aprendizes quanto mestres erguiam suas últimas defesas contra os invasores. E falhavam. Falhavam e morriam, o sangue sendo espalhado pelo piso de mármore e pelas paredes lotadas de gravuras e imagens de eras antigas. Uma visão que trazia a Darion um misto macabro de prazer e culpa.
      E enfim estavam todos mortos. Muito da cidade destruída e posta ao chão. E então não havia mais nada, a não ser uma figura, que podia ser vista pelos olhos do Cavaleiro, e ele não mais via por seus próprios olhos, lá de cima do morro, e sim de um ângulo acima, como um espírito flutuando ao vento e presenciando a história sendo feita. A figura era ele, andando solitariamente por entre escombros e chamas, com um sorriso louco no rosto, de alguém que finalmente encontrou a vingança que tanto esperava, que tanto esperou por incontáveis anos. Ria feito um louco para o céu alaranjado e depois gritava finalmente!.
— Tudo isso pode acontecer, Cavaleiro — falou Alanna. A voz era dela, mas apenas intermediaria da sombra. —A sede de vingança que se esconde nos recônditos mais sombrios do seu coração pode ser saciada.
    Darion agora estava de volta ao topo do rochedo. Olhou mais uma vez para a cidade queimando, e então voltou os olhos para a criança a sua frente.
— Também podemos trazê-los de volta — continuou a sombra. — Sua família — e então, com um tom de gelar a espinha de Darion, a voz de Alanna disse: — Basta deixar Rardras cair.
      E então tudo desmoronou. Como areia carregada pelo vento, fantasia deu lugar à realidade e o Cavaleiro Dragão estava de volta à sacada do castelo. A sombra sumira, como se nunca tivesse existido, deixando Darion sozinho com seus pensamentos e dilemas. Adoraria ver Rardras queimar, apesar de tudo. Adoraria sua família de volta. Mas será que podia mesmo cometer tal traição? Será que conseguiria quebrar um juramento?
     No horizonte, raios de sol despontaram por entre nuvens, anunciando a manhã que se aproximava rapidamente. Um bom tempo fora gasto em confabulação com a sombra, Darion concluiu. Ele se virou e andou até o quarto. A prostituta, ou concubina, como ele eufemisticamente preferia chamar a mulher, continuava dormindo na mesma posição em que ele a deixara, algumas horas antes, quando ela se virou para ele ainda meio dormindo e perguntou para onde ele estava indo; ela voltou a dormir quando ele disse que iria apenas respirar um pouco de ar fresco. Uma bela mulher, Darion pensou, sentando suavemente ao lado dela na cama e então tirando uma mecha de cabelo que caíra em seu rosto. Olhos castanho-claros, quase da cor do ouro, se escondiam por trás das pálpebras fechadas. Os cabelos, muito lisos e sedosos, eram completamente negros, como a noite. Seu corpo estava nu da cintura para cima, com os seios redondos e volumosos despontando desafiadoramente em direção a Darion. Um lençol branco a cobria da cintura para baixo, mas marcava as curvas estonteantes de suas coxas.
— Já é manhã, senhor? — ela perguntou, a voz preguiçosa. Não abrira os olhos ainda.
— Não. Mas ela está chegando — disse, distraído.
— E por que não está dormindo? — ela perguntou. Ela abriu os olhos e se erguera à altura de Darion sentado na cama. O lençol deslizou suavemente para baixo, revelando de forma provocante um pouco da parte pubiana, mas não o bastante, permanecendo baixo de forma igualmente desafiadora a Darion como os seios perfeitos que agora estavam a centímetros de seu próprio peito, ao alcance de suas mãos calejadas. Ela riu disso, um riso provocante e encantador, deixando um leve sorriso de canto de boca. Sorriso que fizera o Cavaleiro Dragão, a algum tempo atrás, descer de sua montaria em meio a um mercado de escravos e comprar aquela mulher a dedo. — Alguma coisa preocupa sua mente — ela disse, os olhos inteligentes e perspicazes esquadrinhando cada parte do rosto de Darion. — Não importa — ela disse quando ele estava prestes a dizer. Pôs um dedo em seus lábios. — Não se preocupe. Não agora — e então o beijou calorosamente.
     Rolaram pela cama e transaram até que o desgaste fosse grande o suficiente para por os dois de volta ao sono interrompido.


     Darion acordou mais tarde naquela manhã com luz em seu rosto. Raios entravam por uma das cortinas abertas e acertavam em cheio seu rosto cheio de cicatrizes. Ele procurou ao redor por sua concubina, mas não a achou.
— Lila? — chamou, mas a mulher não estava em lugar algum do quarto. Talvez no gigantesco armário da parede oposta, absorta na tarefa de avaliar e julgar os milhares de vestidos deixados para trás pela última senhoria que comandara o castelo, algum tempo atrás. Darion no começo achou difícil acreditar que tal fortificação, após ser atacada pelas mesmas forças que agora estavam aos portões de Rardras, não tivesse sido ocupada. Derrotaram os defensores, os mataram, e depois seguiram em frente, deixando aquela fortificação para trás. Erro um tanto infantil, pois aquele castelo guardava, da crista de um vale, a estrada que vinha do leste, contornava um pequeno morro e então entrava em uma floresta. Estavam perto, muito perto de Rardras agora, bastava transpor a floresta. — Lila? — ele chamou mais uma vez, e mais uma vez não obteve resposta.
    Darion levantou da cama e amarrou os cordões do calção. Andou até a porta dupla do armário e deu dois toques de leve na madeira. Nada. Abriu a porta e se viu num corredor ladeado por vestidos de todos os tipos e de todas as corres, que seguia em frente por alguns metros e depois continuava por uma escada até outra sala. Lá ele encontrou Talila, sentada num baquinho, provando sapatos.
    Ela vestia um dos trajes da antiga senhora do castelo, que no momento jazia morta em alguma vala, um azul com detalhes bordados em branco, que caia até a altura de seu tornozelo. O cabelo estava puxado para trás por presilhas adornadas com jóias, que também pertenciam a antiga senhora do castelo — até mesmo porque a própria Talila não tinha pertence algum. Pelo menos não desde que fora vendida como escrava
—, e apenas duas mechas de cabelo caiam pelos lados de seu rosto fino e de traços suaves. Estava linda, foi o único pensamento que Darion conseguiu extrair de sua cabeça.
— Veja , sou uma rainha agora — e então Talila pôs os saltos e ficou quase da altura de Darion. Andou até ele e o beijou.
— Você nasceu para ser rainha. Não tenho dúvidas — disse, deixando um sorriso escapar.
— Acha mesmo? — ela disse, respondendo o sorriso de Darion com um próprio, que foi de orelha a orelha. Ele confirmou com a cabeça e ela o beijou novamente. — Eu te amo, sabia disso?
     Darion, diante dessas palavras, recuou o rosto e o virou, como se tivesse levado um tapa. Sua expressão ficou séria e ao mesmo tempo triste.
— Prepare suas coisas. Partiremos uma hora depois do almoço — ele se limitou a dizer. Se virou e foi embora, deixando uma confusa Talila para trás. Pobre garota que passou o restante do tempo que tinha naquele castelo pensando no que havia de errado nas palavras que dissera. Era uma moça jovem, apesar de tudo. Jovem, tola e apaixonada como qualquer garota de sua idade seria.
    Talila tirou o vestido e pôs de volta suas roupas antigas, que consistiam em uma calça marrom de tecido, uma camisa branca abotoada até o pescoço e os velhos sapatos de couro desgastados. Era de novo apenas uma escrava.

     Já no pátio de entrada do castelo, Darion encontrou dois de seu exército conversando casualmente. Pax, o arqueiro careca de feições lupinas e Gwinth, o cavaleiro brutamontes que se tornara o segundo em comando da cavalaria de Darion.
— Senhor — saudou Pax, que estava virado para Darion no momento em que ele chegou, colando os braços ao corpo e fazendo uma reverencia. Em seguida Gwinth fez o mesmo, mas de forma mais atrapalhada.
— Saudações — respondeu Darion, com apenas um meneio de cabeça. — Longo e certeiro seja o caminho da flecha, e suave e veloz seja o galopar do cavalo — saudou de volta.
— Agradecemos — disseram os dois em uníssono. Havia soldados, arqueiros e cavaleiros correndo de em todas as direções no pátio, mas nenhum parou para saudar Darion. Estavam ocupados  com seus afazeres matutinos. Os outros, camponeses e fazendeiros, ficaram do lado de fora da fortaleza, acampados à margem de um córrego que corria por ali. Apenas os homens do exército particular de Darion permaneceram no castelo.
— Estão todos os homens prontos para partir assim que o almoço já estiver digerido? — perguntou o Cavaleiro Dragão.
— Sim, meu senhor — respondeu Gwinth.
— Ótimo — respondeu Darion. — Vamos, amigos, vamos comer. Estou faminto.
     E assim os três se foram para um salão grande com mesas dispostas lado a lado. A comida, como uma tradição do exército, era apenas servida quando o general estivesse presente e quando Darion se sentou à cabeceira da mesa central, homens e mulheres começaram a entrar trazendo bandejas cheias de comida, que eram uma combinação do que foi achado nas despensas, como queijo e mel, e animais que foram achados nos currais do castelo. Surpreendentemente, ainda haviam cavalos, galinhas e porcos vivos e ainda bem nutridos. Nos campos, num raio de alguns quilômetros, rebanhos de gado e ovelha corriam livres para cima e para baixo, sem seus pastores para limitar seus movimentos.
— Por que, em nome de todos os deuses, eles não os mataram? — disse Darion em relação aos animais livres quando estava na crista do morro olhando para eles, correndo soltos lá em baixo. — Que tipo de exército é esse que não toma fortificações e não se alimenta?
— Mortos — respondeu Gwinth com a simplicidade supersticiosa que lhe era característica.
    Darion virou o rosto para ele, sério.
— Pelo nosso bem, espero que seu palpite esteja errado — e olhou para o horizonte, taciturno.
    Darion chegou a cogitar que os animais estivessem envenenados, ou que o próprio castelo fosse uma grande armadilha. Suposições que se provaram infundadas uma vez que o castelo foi revirado de cima a baixo e as carnes de galinha e porco provados pelos soldados voluntários. Era realmente estranho e muito suspeito para Darion.
     Como a comida não estava estragada ou mesmo envenenada, ela foi servida naquele último dia para mais de quatrocentas pessoas, amontoadas dentro do salão e no pátio do castelo. Uma grande refeição que custou ao castelo seus últimos animais vivos. Nem todos conseguiram carne, apesar de tudo, mas foi um banquete farto, enquanto do outro lado, na parte grande do exército, os camponeses e fazendeiros almoçavam frutas, sementes, raízes, legumes e, os mais sortudos, peixe do córrego. Para muitos, a última refeição que fariam na vida.
     Uma hora após todos terminarem de comer uma corneta ressonou alta, avisando a todos que a marcha começara novamente. Darion montou seu cavalo e liderou a coluna principal de seu exército. Marcharam pelo vale até a floresta, onde tiveram que afunilar significativamente as fileiras de homens para poderem passar pela trilha que ali existia.
    Estavam perto de Rardras agora, e Darion sabia exatamente como quebrar o cerco: iria atacar e atrair os sitiantes para longe as muralhas, deixando um espaço para o exército de Rardras montar uma parede de escudos entre os atacantes e a muralha. Iriam poder flanqueá-los e esta era a vantagem com a qual ele contava. Iriam esmagá-los como uma marreta acertando uma bigorna.
     Era o plano perfeito, mas algo não estava certo. Está muito fácil, Darion pensou não gosto nada disso. Foi então que, em determinado momento da marcha, o inferno recaiu sobre eles.

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