Ótimo!, pensei, adoro presentes. Rasguei o lacre de cera e despejei o conteúdo em minha mão direita: uma pequena esfera dourada e um bilhete. Olhei desinteressado aos dois itens, pois estava com sono, subi as escadas e voltei para meu apartamento. Coloquei as correspondências em cima de uma escrivaninha na sala de estar e fui direto para meu quarto. Joguei a carta e o bilhete em cima do criado-mudo. Deitado, direcionei a esfera contra a luz do abajur e a contemplei. Pelo menos ela é bonita, pensei. Coloquei de lado, também no criado-mudo, apaguei a luz e cai num sono pesado.
Acordei no outro dia bem cedo com o despertador rugindo ao meu lado. O derrubei no chão com um tapa. Me remexi na cama por alguns minutos antes de levantar e me espreguiçar. Cumpri com meus rituais diários de higiene e estava pronto para encarar mais uma maratona de estudos. Não encontrei o Sr. Hart naquela manhã, o que foi um pouco reconfortante, pois eu não estava com humor para conversar.
O dia estava frio. Espirais de névoa levantavam-se do chão à medida que eu ia andando, fazendo daquele um cenário melancólico e triste, como se alguém tivesse tirado todas as cores do mundo. Sentei no banco gelado de concreto do ponto de ônibus e fiquei atento à qualquer movimento estranho. Estava determinado a não deixar ninguém me surpreender de novo.
Felizmente, a única coisa que apareceu foi meu ônibus, cujas longas bufadas de gás carbônico estavam sendo mantidas no chão pelo frio. Embarquei naquele monstro de metal e sentei no fundo, observando a paisagem passando. Em determinado momento senti algo estranho no bolso. Pus a mão e tive uma surpresa: a esfera. Por algum motivo ela estava lá, em meu bolso, mesmo sem eu ter lembrança alguma de tê-la posto lá. Ignorei o fato. Não havia nada de errado com ela, a não ser uma estranha aura azulada, quase invisível, que a rodeava quando vista de um certo ângulo específico. Nada de muito anormal.
Desembarquei em frente à faculdade. Respirei fundo e adentrei as portas duplas de carvalho. É realmente impressionante como nem mesmo o frio absurdo é capaz de fazer as pessoas andarem como se fossem civilizadas. Tirando a possível fratura na clavícula, não encontrei grandes obstáculos para chegar à minha sala, o que era raro até para aquele clima. Adentrei em minha sala e cumprimentei meus amigos. O professor entrou logo em seguida, carregando uma caixinha de giz e uma pasta de couro marrom. Depois de por suas coisas em cima de uma mesa de madeira, ele bateu com o apagador no quadro-negro e pediu que todos se sentassem. As horas seguintes de matéria não são de importância à história, por isso, pulemos para a parte em que estava voltando de ônibus para casa.
Senti uma leve formigação na perna no caminho de volta, exatamente no mesmo lugar que senti quando vim. Mais uma vez levei a mão ao bolso e pesquei a esfera. Desta vez a aura estava mais forte, mais azulada. Então, de súbito, a aura desapareceu. Foi assim a semana inteira, com a aura surgindo e desaparecendo misteriosamente. Poderei sobre o assunto varias vezes durante aquele tempo, mas não cheguei a conclusão alguma; apenas aceitei aquilo como parte do meu dia-a-dia e passei a andar com a esfera no bolso, sempre atento à quando ela emitia a estranha aura.
No sábado de manhã lá estava Jonas, apertando a maldita campainha do meu apartamento sem se importar se alguém estava dormindo àquela horário.
— Droga, Jonas, sabe que horas são?
— Onze e meia...? — perguntou, olhando o relógio de pulso. — Já passou da hora de acordar.
— Olha, não sei quanto a você, mas pra mim até as três da tarde num sábado ainda é hora de dormir — cocei os olhos e bocejei — Entre.
Ele empurrou a bagagem pra dentro do apartamento.
— Por que tanta coisa? — questionei, rindo.
— Ah, sei lá — ele respondeu. — Gosto de estar preparado para eventualidades, sabe.
— Sei, sei sim — falei, ainda rindo com a cena cômica de Jonas carregando tantas malas. Fechei a porta atrás de mim.
Mais tarde naquele dia caminhamos. Um ritual que mantínhamos desde muito pequenos, que era basicamente andar e conversar sobre futilidades quaisquer. Às vezes parávamos e comíamos algo, ou tomávamos um sorvete, mas em geral apenas andávamos até nossos pés doerem.
Aquele dia em especial, frio como estava, nos obrigou a usar casacos. E foi quando pus as mãos nos bolsos que percebi uma forma arredondada: a esfera. Fiquei curioso mais uma vez, pois agora não sabia ao certo se tinha a colocado ali ou não.
Então a puxei para fora e a contemplei na palma de minha mão direita.
— O que é isso? — perguntou Jonas. — Ei, Dave! — ele chamou outra vez. Fiz um "ãhn?" de alguém que retorna de outra realidade e olhei para ele.
— Essa coisa na sua mão. O que é?
O que era? Um presente? Um mistério? Uma simples bolinha do tamanho de uma uva?— Não sei — admiti. — A recebi por correio a alguns dias atrás.
Percebi que estávamos perto de um trecho que meu ônibus fazia todos os dias.
— Vem, quero te mostrar algo.
Andamos por algumas ruas e chegamos à parte onde a esfera brilhava.— Vê? — mostrei. — É muito bonita...— Eu me pergunto o porquê disso.— Magnetismo, talvez? — indagou Jonas.— Talvez.
Então algo realmente estranho aconteceu: a esfera esquentou. Parei no mesmo momento, estranhando aquela reação.
— O que foi? — perguntou Jonas.— A esfera, ela... está quente — respondi. — Veja — e estendi para que ele a tocasse.
— Engraçado — ele respondeu, depois de tocá-la.
— Vamos sair daqui — falei, perturbado. — Não estou gostando disso...
Andamos mais um pouco. Em determinado momento se tornou impossível de segurar a esfera, de tão quente que ela estava.
Gritei um palavrão quando ela começou a me queimar. A derrubei no chão na mesma hora. Ela rolou em direção à um lote vazio, logo a esquerda de nós. Era como se estivesse viva e seguindo seu próprio rumo, pois desviou de vários obstáculos enquanto rolava. Foi em direção à uma estranha porta, formada por duas serpentes de madeira que se entrelaçavam no ápice. Seria uma bela obra de arte, não fosse a estranheza do local onde estava.— Veja — apontou Jonas, para onde a esfera estava indo.
Ignorando o fato de não haver declínio nenhum naquele terreno, ela continuou rolando pela terra, em direção à porta.
Andamos lentamente, com receio, indo ao centro do lote baldio sem tirar os olhos do estranho acontecimento que se desenrolava logo a frente. Foi então que, subitamente, a esfera voou em direção a porta e se fundiu a ela. Jonas e eu ficamos paralisados, boquiabertos. Medo e curiosidade se misturavam em um estranho arranjo dentro de mim, e fui me aproximando lentamente. Jonas fez o mesmo.
Não notei de início, mas pouco a pouco, a porta de madeira, que antes era branca, estava começando a sumir. Primeiro sua cor desbotou, depois ficou levemente transparente, então, finalmente, mudou para um tom roxo. Foi então que senti algo agarrando meus tornozelos com uma força tremenda. Dragado violentamente pela porta, fui de encontro ao chão. Minha visão ficou imediatamente embaçada, e eu me senti tonto. Finas cordas se amarraram em mim, prendendo meus pés juntos. Gritei alto e esperneei, mas serviu apenas para que mais cordas surgissem, atando meus braços às minhas costas. A última coisa que me lembro é de ter olhado para trás, em direção à Jonas, enquanto tentava inutilmente me desvencilhar dos laços.
Fomos puxados para dentro da porta.
Vais se fude!!
ResponderExcluirTa muito massa!!
Caralho mano, ta massa pra porra ! ..
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