— Você está bem? — minha cabeça estava prestes a explodir de tanta dor — Acorde, rapaz!
Meus olhos estavam pesados feito chumbo e minhas costelas doíam. Eu devo ter balbuciado algo ininteligível.
— Não é hora de devaneios, eles se aproximam! — com muito esforço, consegui abrir minhas pesadas pálpebras.
Por alguns segundos esqueci de tudo que havia acontecido, fiquei alheio à tudo ao meu redor pois a dor em minha cabeça era maior que qualquer preocupação.
Me levantei e sacudi a terra que cobria minhas vestes. Havia uma mancha roxa em volta dos meus pulsos, mas não prestei atenção. De fato, não prestei atenção em mais nada porque, na verdade, nada fazia sentido. Ao meu redor se erguia uma clareira de árvores verdes e altas, à minha frente estava Jonas, caído de bruços sobre uma poça de lama e, mais a frente, um grande arco de pedra, com duas serpentes saindo do chão e se entrelaçando no ápice, formando um vão entre elas. Eu conheço isso.
Lentamente as coisas foram voltando à mim em forma de flashs rápidos e desconexos. Visualizei a esfera, a porta, Jonas e eu sendo arrastados, o turbilhão multicolorido... e de repente tudo fez sentido...
— Ei você, estou falando contigo! — a voz era áspera, grave, e minhas pernas tremeram.
Hoje em dia, tendo em vista o que eu aprendi, eu teria corrido. "Corra, garoto!" teria dito Reagan. Mas naquela época eu ainda não o tinha conhecido, e nada podia me preparar para o que estava prestes a acontecer. Como eu disse, eu era um rapaz imprudente, burro, curioso, por isso nada me impediu de girar lentamente em meus calcanhares e ter minha primeira visão de um orc. Tampouco era cético e por isso, a principio, nem me veio a mente considerar tudo aquilo que estava acontecendo e o que viria a acontecer como uma brincadeira de mal gosto. Não considerei nada, apenas aceitei os fatos como se fossem normais, como se eu estivesse no mundo de um daqueles jogos de video-game que eu tanto jogara na juventude; jogos de cavaleiros e dragões, heróis e monstros, onde o mocinho enfrentava grandes provações pela donzela amada.
— O-o que é v-você? — medo. Medo define tudo o que senti naquele momento. Lentamente, fui reconquistando o movimento de minhas pernas.
Ele apenas balançou a cabeça e ignorou a pergunta.
— Você quer viver? — perguntou. Andei para trás, balançando a cabeça com veemência, afirmando que sim.
— Por favor, não nos machuque! Por favor... — pedir misericórdia não soa tão humilhante quando se está à frente de uma besta de dois metros e meio de altura, armada com um machado.
— Te machucar? Tenho mais com o que me preocupar no momento — e virou a cabeça, olhando em todas as direções, sondando o local.
Foi então que eu percebi que eu não estava mais em minha cidade.
— Onde... onde estou?
— Não temos tempo para perguntas, humano. Se você preza a sua vida, é melhor começar a correr, pois o inimigo está próximo.
A clareira era grande e as árvores altas quase tapavam o sol. Ao fundo pude ouvir uma certa agitação na floresta ao nosso redor, que fazia pássaros voarem de seus galhos. De tanto andar para trás acabei tropeçando em Jonas, que continuava dormindo. Ele soltou um grito de dor e rapidamente acordou. Se pôs de pé lentamente, assim como eu, também massageando as têmporas. Demorou para perceber o que estava acontecendo mas quando percebeu, soltou um grito agudo e sua bexiga se esvaziou no mesmo momento. A agitação na floresta estava ficando cada vez maior. Meu medo era tal que lágrimas se formaram em meus olhos.
— Humanos tolos! Vamos todos morrer se ficarmos aqui. Se há uma hora para correr, ela é agora.
Não consegui responder. Eu queria chorar feito um bebê ou até mesmo sair correndo, mas nada em meu corpo obedecia.
Da floresta ao nosso redor começaram a sair pessoas armadas. Elas tinham espadas, arcos, bestas, e algumas vestiam cota de malha. A besta verde rosnou, como um animal encurralado, olhando para eles e erguendo seu machado de duas lâminas. Graças a deus, pensei por um instante. Vieram nos salvar. Mas um exame mais detalhado de meus olhos trêmulos conseguiu apurar algo ainda mais perturbador que um monstro verde gigante: cadáveres podres e em decomposição. Pele cinza, carne apodrecida, cheiro nauseabundo. Haviam alguns com seus órgãos internos à mostra, e a visão me fez vomitar o que havíamos comido no almoço.
De alguma forma, o medo daqueles horrores foi maior do que a que tive do orc, e por isso me movi em direção a ele. Jonas, olhando para mim procurando por alguma orientação, fez o mesmo e nós três terminamos de costas uns para os outros, feito um triangulo.
— Não é hora para fraquejar. Aqui, lutem se quiserem viver.
— Lutar? — Perguntei. Ele puxou de sua bainha uma espada e jogou aos meus pés, depois jogou outra para Jonas. — Mas eu nunca...
Uma flecha passou zunindo pelo meu rosto, se perdendo na floresta mais atras. De repente, uma saraivada de flechas foi atirada contra nós. Felizmente o orc levantou seu machado gigantesco para bloquear o ataque, se cobrindo atrás de suas duas lâminas. Algumas bateram inofensivamente contra o metal, outras acertaram o braço esquerdo do nosso companheiro verde, mas isso não pareceu o abalar. Ele gritou em fúria e investiu contra os inimigos. Muitos foram arremessados para trás apenas com a força do impacto. Golpes eram desferidos pelas criaturas, mas nenhum parecia acertar o alvo, pois o orc defendia e depois contra-atacava, decepando todos os mortos-vivos por perto com o violento giro de seu machado.
Jonas começou a rir. Parecia estar prestes a surtar, gargalhando cada vez mais alto. Ele estava louco, o medo visível em seus olhos arregalados, que pareciam gritar pela minha ajuda. Isso não está acontecendo, ele gritava, depois ria. Isso não está acontecendo. Eu estou sonhando e logo vou acordar. Mas é tudo real, pensei comigo mesmo. Não é?
Os inimigos estavam começando a me cercar e eu nem tinha percebido. Eu estivera em transe, dividido entre assistir a batalha que se desenvolvia logo a frente e meu amigo lentamente perdendo a sanidade. Mais uma vez senti as pernas amolecerem e meu sangue gelar. A espada em minha mão tremia violentamente, ameaçando cair a qualquer momento. O primeiro inimigo investiu contra mim, girando sua espada de cima para baixo e gritando. Brandi a minha por puro reflexo e fui capaz de evitar o golpe, mas a força foi tamanha que cambaleei para trás, tropecei e cai no chão. Antes que eu pudesse perceber, a criatura que acabara de me atacar estava em cima de mim. Senti o metal frio perfurar minhas entranhas e espalhar meu sangue ao redor. De início, não senti dor. A adrenalina corria desenfreada por cada célula do meu corpo, inibindo meus sentidos. Percebi o tempo desacelerar ao passo em que uma torrente de sofrimento me invadia, me fazendo gritar. Não sei por que, mas meu estômago começou a doer ainda mais do que minha ferida. Por um segundo achei que fosse vomitar, mas o que aconteceu a seguir foi muito diferente de qualquer coisa que eu já tinha vivenciado. Algo subiu pela minha garganta e saiu pela minha boca. Era fogo, vermelho e vívido, saindo em longas rajadas de mim. Em poucos segundos todos aqueles que me cercavam estavam em chamas, correndo de um lado para o outro desesperados, enquanto labaredas os consumiam.
Não sei o que aconteceu a seguir. Minha visão começou a ficar turva e meus sentidos foram aos poucos falhando. Em segundos, tudo o que eu podia ouvir eram sussurros distantes, gritando meu nome. Meus olhos ficaram embaraçados e as trevas vieram avançando em minha direção. Logo eu fui engolido por uma maré de escuridão, me cegando completamente. Repentinamente, tudo ficou silencioso. Nem um grito, nem um farfalhar, nada. Apenas o som de minha própria respiração, arfando violentamente; lutando para absorver algum ar naquele vácuo desesperante. Pouco a pouco, fui recobrando a calma. Uma torrente de segurança me invadiu e eu pude respirar normalmente. Ao longe, pude ouvir um sibilar agudo e um bater de asas. Ainda estava escuro, e isso me assustava. Tudo isso estava se passando na minha cabeça, mas a principio não pude dizer com certeza. Era tudo tão real...
Tateei ao redor, à procura da espada, mas não havia nada, apenas trevas. O som foi ficando mais alto à medida que se aproximava. Eu queria correr, mas algo dizia que de nada adiantaria. Podia sentir o mal se aproximando a cada bater de asas.
Sentei-me e pude observar ao longe algo vermelho vindo em minha direção, a única cor naquele mundo de trevas e escuridão. Era algum tipo de serpente alada, voando baixo e espalhando fogo para todos os lados. A criatura gigantesca pousou ao meu lado e me fitou. Ele tinha escamas vermelhas em forma de losango, e chifres pontudos retorcidos que saiam de sua cabeça. Era uma criatura magnífica e aterrorizante. Seus olhos em forma de fenda não paravam de me analisar, dando a parecer que iria me atacar a qualquer momento.
Em minha mente, pude ouvir sua voz ecoando pelo meu cérebro. "Você é fraco, uma vergonha. Mas já que minha existência depende da sua, irei emprestar meu poder a você. Seja forte". Pude sentir o fluxo de energia emanando do dragão e vindo parar em mim, curando meu ferimento.
Felizmente, acordei algum tempo depois, com Jonas gritando em meus ouvidos como se eu fosse surdo.
— Dave! Dave, acorda! — ele estava ajoelhado, me chacoalhando pelos ombros.
— Não grite. Minha cabeça está doendo.
Jonas levou um susto e caiu para trás. Começou a falar de maneira rápida e desconexa, de forma que consegui captar apenas as palavras "morto" e "espada". Minha cabeça latejava, e o falatório de Jonas apenas aumentava a dor.
— Tudo bem Jonas, eu estou bem agora. Já pode me largar, por favor — percebi que os olhos dele estavam prestes a derramar lágrimas de alegria.
Olhei ao meu redor. O cenário era de completa destruição: corpos apodrecidos, sangue para todos os lados, fogo em algumas árvores. O orc estava parado logo a frente, ainda ofegante por causa da recente batalha. Ele estava com algumas flechas em seu braço direito, mas não parecia se incomodar com aquilo.
— Você... O que você fez, humano? — ele parecia desconcertado.
— Eu não sei, eu... — fiquei em silêncio, pensando no que havia acontecido e na criatura que havia aparecido.
— Bom, eu também não sei o que você fez, mas merece meu respeito por ter salvo a mim e seu amigo. Você os assustou com seu fogo — ele se curvou, em uma reverência — Meu nome é Darokk, filho de Darvak — ele puxou as flechas de seu braço, soltando alguns grunhidos.
— Me chamo Dave — pensei em meu pai, e em como eu nunca havia o visto em minha vida. Eu não tinha uma resposta a altura, então apenas falei. — Filho de... ninguém.
— 'Ninguém' deve ser um homem orgulhoso — e sorriu. — Diga, você é algum tipo de mago? — perguntou Darokk
— Não... — falei, segurando o riso. E imaginar que a minutos atrás eu pensara que essa bondosa besta verde gigante iria arrancar meu coração e comê-lo enquanto ainda estivesse quente em suas mãos.
— Foi realmente extraordinário o que fez agora a pouco — Darokk pôs o machado em suas costas, atado por uma correia de aço.
Eu não queria pensar naquilo, no momento. Os últimos 20 ou 30 minutos haviam sido confusos demais para mim. Eu precisava de um ponto de referência, uma pergunta por onde começar.
— Onde... onde estamos? — finalmente perguntei, tentando me nortear.
— Vocês realmente não sabem? Como chegaram até aqui sem saber de nada?
— Também não sabemos... Estávamos próximos a uma porta, quando fomos "sugados" para dentro dela e viemos parar aqui. — foi Jonas quem respondeu.
— Você quer dizer a porta atrás de você? — e apontou para ela
Todo esse tempo e não havia caído a ficha de que aquela era a mesma que nos trouxe até ali. Fiquei em silêncio tentando pensar em algo, tentando fazer a ligação entre os recentes fatos que ocorreram. O que era aquela esfera? O que era aquela porta? O que era aquele lugar? Nada. Nada fazia sentido ou parecia ter ligação. Um portal? Talvez, mas eu teria que novamente ter nove anos para acreditar nisso. Talvez fosse uma pegadinha, dessas que se vê na TV e que são responsáveis por traumas nos participantes e gargalhadas das plateias. Faria sentido, não fosse o fato de eu quase ter morrido com uma espada no ventre. Não, pensando melhor, não fazia sentido algum.
— Vamos andando, rapazes — falou Darokk. — Aqui não é seguro.
Meus olhos estavam pesados feito chumbo e minhas costelas doíam. Eu devo ter balbuciado algo ininteligível.
— Não é hora de devaneios, eles se aproximam! — com muito esforço, consegui abrir minhas pesadas pálpebras.
Por alguns segundos esqueci de tudo que havia acontecido, fiquei alheio à tudo ao meu redor pois a dor em minha cabeça era maior que qualquer preocupação.
Me levantei e sacudi a terra que cobria minhas vestes. Havia uma mancha roxa em volta dos meus pulsos, mas não prestei atenção. De fato, não prestei atenção em mais nada porque, na verdade, nada fazia sentido. Ao meu redor se erguia uma clareira de árvores verdes e altas, à minha frente estava Jonas, caído de bruços sobre uma poça de lama e, mais a frente, um grande arco de pedra, com duas serpentes saindo do chão e se entrelaçando no ápice, formando um vão entre elas. Eu conheço isso.
Lentamente as coisas foram voltando à mim em forma de flashs rápidos e desconexos. Visualizei a esfera, a porta, Jonas e eu sendo arrastados, o turbilhão multicolorido... e de repente tudo fez sentido...
— Ei você, estou falando contigo! — a voz era áspera, grave, e minhas pernas tremeram.
Hoje em dia, tendo em vista o que eu aprendi, eu teria corrido. "Corra, garoto!" teria dito Reagan. Mas naquela época eu ainda não o tinha conhecido, e nada podia me preparar para o que estava prestes a acontecer. Como eu disse, eu era um rapaz imprudente, burro, curioso, por isso nada me impediu de girar lentamente em meus calcanhares e ter minha primeira visão de um orc. Tampouco era cético e por isso, a principio, nem me veio a mente considerar tudo aquilo que estava acontecendo e o que viria a acontecer como uma brincadeira de mal gosto. Não considerei nada, apenas aceitei os fatos como se fossem normais, como se eu estivesse no mundo de um daqueles jogos de video-game que eu tanto jogara na juventude; jogos de cavaleiros e dragões, heróis e monstros, onde o mocinho enfrentava grandes provações pela donzela amada.
— O-o que é v-você? — medo. Medo define tudo o que senti naquele momento. Lentamente, fui reconquistando o movimento de minhas pernas.
Ele apenas balançou a cabeça e ignorou a pergunta.
— Você quer viver? — perguntou. Andei para trás, balançando a cabeça com veemência, afirmando que sim.
— Por favor, não nos machuque! Por favor... — pedir misericórdia não soa tão humilhante quando se está à frente de uma besta de dois metros e meio de altura, armada com um machado.
— Te machucar? Tenho mais com o que me preocupar no momento — e virou a cabeça, olhando em todas as direções, sondando o local.
Foi então que eu percebi que eu não estava mais em minha cidade.
— Onde... onde estou?
— Não temos tempo para perguntas, humano. Se você preza a sua vida, é melhor começar a correr, pois o inimigo está próximo.
A clareira era grande e as árvores altas quase tapavam o sol. Ao fundo pude ouvir uma certa agitação na floresta ao nosso redor, que fazia pássaros voarem de seus galhos. De tanto andar para trás acabei tropeçando em Jonas, que continuava dormindo. Ele soltou um grito de dor e rapidamente acordou. Se pôs de pé lentamente, assim como eu, também massageando as têmporas. Demorou para perceber o que estava acontecendo mas quando percebeu, soltou um grito agudo e sua bexiga se esvaziou no mesmo momento. A agitação na floresta estava ficando cada vez maior. Meu medo era tal que lágrimas se formaram em meus olhos.
— Humanos tolos! Vamos todos morrer se ficarmos aqui. Se há uma hora para correr, ela é agora.
Não consegui responder. Eu queria chorar feito um bebê ou até mesmo sair correndo, mas nada em meu corpo obedecia.
Da floresta ao nosso redor começaram a sair pessoas armadas. Elas tinham espadas, arcos, bestas, e algumas vestiam cota de malha. A besta verde rosnou, como um animal encurralado, olhando para eles e erguendo seu machado de duas lâminas. Graças a deus, pensei por um instante. Vieram nos salvar. Mas um exame mais detalhado de meus olhos trêmulos conseguiu apurar algo ainda mais perturbador que um monstro verde gigante: cadáveres podres e em decomposição. Pele cinza, carne apodrecida, cheiro nauseabundo. Haviam alguns com seus órgãos internos à mostra, e a visão me fez vomitar o que havíamos comido no almoço.
De alguma forma, o medo daqueles horrores foi maior do que a que tive do orc, e por isso me movi em direção a ele. Jonas, olhando para mim procurando por alguma orientação, fez o mesmo e nós três terminamos de costas uns para os outros, feito um triangulo.
— Não é hora para fraquejar. Aqui, lutem se quiserem viver.
— Lutar? — Perguntei. Ele puxou de sua bainha uma espada e jogou aos meus pés, depois jogou outra para Jonas. — Mas eu nunca...
Uma flecha passou zunindo pelo meu rosto, se perdendo na floresta mais atras. De repente, uma saraivada de flechas foi atirada contra nós. Felizmente o orc levantou seu machado gigantesco para bloquear o ataque, se cobrindo atrás de suas duas lâminas. Algumas bateram inofensivamente contra o metal, outras acertaram o braço esquerdo do nosso companheiro verde, mas isso não pareceu o abalar. Ele gritou em fúria e investiu contra os inimigos. Muitos foram arremessados para trás apenas com a força do impacto. Golpes eram desferidos pelas criaturas, mas nenhum parecia acertar o alvo, pois o orc defendia e depois contra-atacava, decepando todos os mortos-vivos por perto com o violento giro de seu machado.
Jonas começou a rir. Parecia estar prestes a surtar, gargalhando cada vez mais alto. Ele estava louco, o medo visível em seus olhos arregalados, que pareciam gritar pela minha ajuda. Isso não está acontecendo, ele gritava, depois ria. Isso não está acontecendo. Eu estou sonhando e logo vou acordar. Mas é tudo real, pensei comigo mesmo. Não é?
Os inimigos estavam começando a me cercar e eu nem tinha percebido. Eu estivera em transe, dividido entre assistir a batalha que se desenvolvia logo a frente e meu amigo lentamente perdendo a sanidade. Mais uma vez senti as pernas amolecerem e meu sangue gelar. A espada em minha mão tremia violentamente, ameaçando cair a qualquer momento. O primeiro inimigo investiu contra mim, girando sua espada de cima para baixo e gritando. Brandi a minha por puro reflexo e fui capaz de evitar o golpe, mas a força foi tamanha que cambaleei para trás, tropecei e cai no chão. Antes que eu pudesse perceber, a criatura que acabara de me atacar estava em cima de mim. Senti o metal frio perfurar minhas entranhas e espalhar meu sangue ao redor. De início, não senti dor. A adrenalina corria desenfreada por cada célula do meu corpo, inibindo meus sentidos. Percebi o tempo desacelerar ao passo em que uma torrente de sofrimento me invadia, me fazendo gritar. Não sei por que, mas meu estômago começou a doer ainda mais do que minha ferida. Por um segundo achei que fosse vomitar, mas o que aconteceu a seguir foi muito diferente de qualquer coisa que eu já tinha vivenciado. Algo subiu pela minha garganta e saiu pela minha boca. Era fogo, vermelho e vívido, saindo em longas rajadas de mim. Em poucos segundos todos aqueles que me cercavam estavam em chamas, correndo de um lado para o outro desesperados, enquanto labaredas os consumiam.
Não sei o que aconteceu a seguir. Minha visão começou a ficar turva e meus sentidos foram aos poucos falhando. Em segundos, tudo o que eu podia ouvir eram sussurros distantes, gritando meu nome. Meus olhos ficaram embaraçados e as trevas vieram avançando em minha direção. Logo eu fui engolido por uma maré de escuridão, me cegando completamente. Repentinamente, tudo ficou silencioso. Nem um grito, nem um farfalhar, nada. Apenas o som de minha própria respiração, arfando violentamente; lutando para absorver algum ar naquele vácuo desesperante. Pouco a pouco, fui recobrando a calma. Uma torrente de segurança me invadiu e eu pude respirar normalmente. Ao longe, pude ouvir um sibilar agudo e um bater de asas. Ainda estava escuro, e isso me assustava. Tudo isso estava se passando na minha cabeça, mas a principio não pude dizer com certeza. Era tudo tão real...
Tateei ao redor, à procura da espada, mas não havia nada, apenas trevas. O som foi ficando mais alto à medida que se aproximava. Eu queria correr, mas algo dizia que de nada adiantaria. Podia sentir o mal se aproximando a cada bater de asas.
Sentei-me e pude observar ao longe algo vermelho vindo em minha direção, a única cor naquele mundo de trevas e escuridão. Era algum tipo de serpente alada, voando baixo e espalhando fogo para todos os lados. A criatura gigantesca pousou ao meu lado e me fitou. Ele tinha escamas vermelhas em forma de losango, e chifres pontudos retorcidos que saiam de sua cabeça. Era uma criatura magnífica e aterrorizante. Seus olhos em forma de fenda não paravam de me analisar, dando a parecer que iria me atacar a qualquer momento.
Em minha mente, pude ouvir sua voz ecoando pelo meu cérebro. "Você é fraco, uma vergonha. Mas já que minha existência depende da sua, irei emprestar meu poder a você. Seja forte". Pude sentir o fluxo de energia emanando do dragão e vindo parar em mim, curando meu ferimento.
Felizmente, acordei algum tempo depois, com Jonas gritando em meus ouvidos como se eu fosse surdo.
— Dave! Dave, acorda! — ele estava ajoelhado, me chacoalhando pelos ombros.
— Não grite. Minha cabeça está doendo.
Jonas levou um susto e caiu para trás. Começou a falar de maneira rápida e desconexa, de forma que consegui captar apenas as palavras "morto" e "espada". Minha cabeça latejava, e o falatório de Jonas apenas aumentava a dor.
— Tudo bem Jonas, eu estou bem agora. Já pode me largar, por favor — percebi que os olhos dele estavam prestes a derramar lágrimas de alegria.
Olhei ao meu redor. O cenário era de completa destruição: corpos apodrecidos, sangue para todos os lados, fogo em algumas árvores. O orc estava parado logo a frente, ainda ofegante por causa da recente batalha. Ele estava com algumas flechas em seu braço direito, mas não parecia se incomodar com aquilo.
— Você... O que você fez, humano? — ele parecia desconcertado.
— Eu não sei, eu... — fiquei em silêncio, pensando no que havia acontecido e na criatura que havia aparecido.
— Bom, eu também não sei o que você fez, mas merece meu respeito por ter salvo a mim e seu amigo. Você os assustou com seu fogo — ele se curvou, em uma reverência — Meu nome é Darokk, filho de Darvak — ele puxou as flechas de seu braço, soltando alguns grunhidos.
— Me chamo Dave — pensei em meu pai, e em como eu nunca havia o visto em minha vida. Eu não tinha uma resposta a altura, então apenas falei. — Filho de... ninguém.
— 'Ninguém' deve ser um homem orgulhoso — e sorriu. — Diga, você é algum tipo de mago? — perguntou Darokk
— Não... — falei, segurando o riso. E imaginar que a minutos atrás eu pensara que essa bondosa besta verde gigante iria arrancar meu coração e comê-lo enquanto ainda estivesse quente em suas mãos.
— Foi realmente extraordinário o que fez agora a pouco — Darokk pôs o machado em suas costas, atado por uma correia de aço.
Eu não queria pensar naquilo, no momento. Os últimos 20 ou 30 minutos haviam sido confusos demais para mim. Eu precisava de um ponto de referência, uma pergunta por onde começar.
— Onde... onde estamos? — finalmente perguntei, tentando me nortear.
— Vocês realmente não sabem? Como chegaram até aqui sem saber de nada?
— Também não sabemos... Estávamos próximos a uma porta, quando fomos "sugados" para dentro dela e viemos parar aqui. — foi Jonas quem respondeu.
— Você quer dizer a porta atrás de você? — e apontou para ela
Todo esse tempo e não havia caído a ficha de que aquela era a mesma que nos trouxe até ali. Fiquei em silêncio tentando pensar em algo, tentando fazer a ligação entre os recentes fatos que ocorreram. O que era aquela esfera? O que era aquela porta? O que era aquele lugar? Nada. Nada fazia sentido ou parecia ter ligação. Um portal? Talvez, mas eu teria que novamente ter nove anos para acreditar nisso. Talvez fosse uma pegadinha, dessas que se vê na TV e que são responsáveis por traumas nos participantes e gargalhadas das plateias. Faria sentido, não fosse o fato de eu quase ter morrido com uma espada no ventre. Não, pensando melhor, não fazia sentido algum.
— Vamos andando, rapazes — falou Darokk. — Aqui não é seguro.
Nota: Obrigado a todos que estão acompanhando o conto. Espero melhorar mais com o tempo.
E peço perdão por qualquer erro que possa ser encontrado. Se tiver alguma crítica, ficarei feliz se você fizer algum comentário :D.
Cara, essa história esta muito boa... continue escrevendo, estou ansioso para os próximos capítulos, parabéns você é um ótimo escritor...
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