quinta-feira, 28 de julho de 2011

Capítulo 1 - Um pouco sobre minha vida

— Estou curioso, David — eu digo, enquanto o observo em minha frente. — sobre sua história. Ela se tornou uma lenda, sabe.
— Quem é você? — ele diz. Está assustado e confuso. Afinal, quem não estaria? — que lugar é este?!
— Eu tenho vários nomes. Morte, ceifeiro, Hades, Hel. Quanto a este lugar, pode chamá-lo de paraíso, inferno, submundo, helheim ou qualquer que seja sua crença. — diante disto ele finalmente se acalma. Sua respiração agora está controlada e seus olhos não mais procuram por explicações nos arredores. — Diabos, alguns até chamam de "Clareira no final do caminho" — eu rio diante de tal afirmação. — Isto é o fim, David.
— Estou morto — ele fala e então ri, como alguém que finalmente entende uma piada. — Eu achei que seria algo mais... glorioso. Então, para onde vamos?
— Por enquanto a lugar algum — digo, e faço um gesto. Cadeiras surgem para nós dois sentarmos. — Eu gostaria de ouvir sua história, David. Adoro histórias.
   Eu já estou sentado mas David está em pé, me olhando descrente.
— Você quer saber minha história? — ele pergunta. Então percebe que estou sério. — E se eu não quiser contar?
  Empaco por um momento. De todos os que ouvi até agora, David é o primeiro a dizer isso.
— Confesso que nada — respondo. — Você já está morto. Há pouco que eu possa fazer contigo além de te conduzir ao seu destino.
— Certo. Me dê um único bom motivo para te contar tudo.
    Penso por um momento.
— É o que ela gostaria que você fizesse.
    É a vez dele empacar. Todo o orgulho e arrogância abandonam seu rosto, limpando sua expressão. Ele morde o lábio e se vira de costas. Quando fala, sua voz está embargada.
— Só me responda isso, então: vou vê-la de novo?

— É claro — minto. É mais fácil assim.
— Tudo bem.



Anos atrás





   Lembro como se fosse ontem o começo desta loucura toda.

   Me chamo David, mas meus amigos me apelidaram de Dave. Tinha 19 anos na época.
   Tudo começa numa monótona manhã de segunda-feira, como outra qualquer. Acordei em meu quarto, um pequeno cubículo com uma cama, um armário velho marrom e um criado-mudo. O relógio marcava cinco e meia da manhã. As férias de inverno tinham sido boas, mas realmente insuficientes. Pelo menos não estava frio aquele dia.
    Tomei banho, escovei os dentes, pus meu traje habitual: uma camisa preta, uma calça jeans e um tênis azul. Fui até a cozinha e comi uma fatia pão com geleia. Estava pronto para ir para o ponto de ônibus. Desci o lance de escadas que leva ao térreo do meu prédio e rumei em direção à saída. Tudo normal naquela minha vidinha de estudante.

    Meu prédio não era muito luxuoso, mas dava pra levar uma vida tranquila e calma, já que em grande parte do tempo os moradores eram boas pessoas. Pouco a pouco, aqui e ali, os habitantes do meu bloco estavam começando a acordar para realizar suas tarefas matinais. Cumprimentei o senhor Hart, um gentil morador que estava levando o lixo para fora.
   — Bom dia, Dave — Adrian Hart era um homem alto e corpulento. Estava na casa dos cinquenta anos, mas apesar disso, tinha poucas rugas e apenas algumas mexas de cabelos grisalhos em meio à cabeleira castanha.
   — Ah, bom dia senhor Hart. Acordou cedo hoje — observei.
   — Sim, é meu dia de levar o lixo para fora — ele fez uma careta. Carregava duas sacolas cinzas em uma das mãos —  A vida não está fácil — e riu. Abri a porta para que o Sr. Hart saísse e fui atrás. 
   — Realmente — respondi. Minha sorte é que ele era um homem de poucas palavras. Mais alguns metros e ele parou perto da lixeira. — Até mais, Sr. Hart.
— Até mais, Dave.
    Posso ter parecido um pouco rude, mas a verdade é que eu nunca tive ânimo para conversar de manhã, logo após acordar, e acredito que tampouco o sr. Hart tinha.

    O ponto de ônibus ficava a duas quadras da minha casa e tive de andar o percurso remanescente. Ao longe, o sol nascia em refulgentes raios dourados, cortando as nuvens com luz. Um espetáculo maravilhoso que eu tinha a oportunidade de presenciar todos os dias. Ou, ao menos, de segunda à sexta.
    Me sentei no banco de concreto e pus a mochila de lado. Naqueles breves minutos, naquele pequeno ponto de ônibus, eu tinha um dos raros momentos em que eu podia experimentar um pouco de paz e silêncio. Carros raramente passavam por ali, e era muito cedo para as pessoas estarem acordadas. Então o que eu fazia era sentar e refletir. Pensar sobre tudo, desde coisas simples como "será que lembrei de levar o lixo para fora?" até mais complicadas, como física. Esses pensamentos tão profundos e igualmente inúteis tiravam totalmente a minha concentração de tudo ao meu redor. Tanta foi a falta de atenção que não percebi quando um homem se aproximou e sentou na outra extremidade do banco. Olhei para o lado, distraído, e percebi que ele estava ali, me olhando com um olhar gelado e penetrante. Levei um forte susto. Não só pela surpresa, mas  também pela cara intimidadora. É difícil de descrever o quão intimidante ele parecia ser, por isso acho que uma descrição do rosto dele deve ser um bom começo: cabelos negros e bagunçados, realmente muito bagunçados, como se tivesse acabado de sair de um banho, ou de um choque elétrico; olhos verdes semi-cerrados, penetrantes, pele bronzeada e marcada pelo tempo. Sem contar a medonha cicatriz que descia de sua testa, passava pelo olho direito e parava na bochecha.
— Me desculpe — ele se adiantou. — Te assustei? Essa minha cicatriz realmente causa reações adversas nas pessoas — ele sorriu, e senti um arrepio na espinha.
— Não, eu... bom, é que eu sou sempre o único aqui, então... — gesticulei com as mãos de forma nervosa. Apesar de trajar um terno fino, com sapatos marrons e uma gravata azul, senti um medo irreal daquele homem.
— Ah, entendo. Bom, de qualquer forma, meu nome Thomas — ele estendeu a mão.

— Meu nome é Dave, o prazer é meu. — estendi a mão e cumprimentei-o. A mão dele era áspera e cheia de calos.
—  Diga me, rapaz, o que faz acordado tão cedo?
     Um completo estranho me fazendo perguntas. Ótimo, era o que eu precisava.

— Faculdade. Tenho que pegar o ônibus desse horário para não me atrasar.
   Ele balançou a cabeça algumas vezes, como quem tenta assimilar uma informação muito importante mas igualmente grande.

— Ah, entendo. O que esta... ahm... cursando?
— Engenharia Civil... sr. Thomas.
— Ah, pode me chamar de Tom, é mais fácil — e sorriu de novo. — Um curso promissor esse, não é? — ele me encarou, e acho que pude ver uma sombra de orgulho relampejar através de seu rosto marcado. — Acho que esse é o seu ônibus chegando — realmente, lá estava meu transporte, se aproximando vagarosamente, soltando uma nuvem de fumaça negra e nociva.
    Me levantei do banco, aliviado pelo adiantamento do ônibus, e pus a mochila nas costas.
— Bom, acho que isso é um adeus. Foi um prazer, Tom...
— Gillen. E não é um adeus, apenas um até logo — Mais uma vez senti um frio na espinha.
    Subi no ônibus rapidamente, mas sem dar bandeira do medo que o último comentário me causara. Sentei no fundo do ônibus, que estava praticamente vazio e olhei pela janela em direção ao Sr. Gillen Não estava mais lá. Aquilo foi só o começo das coisas estranhas e, deus me perdoe, a partir dali só piorou.
    Demorei aproximadamente uns vinte minutos para chegar à faculdade. O rosto daquele homem ainda estava fresco em minha memória e aquilo me perturbava mais do que devia. Ao longo daquela estranha semana lembrei daquela cicatriz e daquele sorriso frio, pois o que aconteceu depois daquilo só podia ter sido em decorrência daquela aparição misteriosa.
   As instalações da universidade eram relativamente pequenas, mas ainda sim era uma das mais conceituadas do país.
 Apesar de amplos, os corredores pareciam pequenos por causa de tanta gente que ia e vinha em sua pressa matinal. Depois de esbarrar algumas vezes e tentar evitar ser pisoteado até a morte, cheguei à minha sala, que estava relativamente mais calma que aquela selva lá fora. A sala era grande, e seus patamares com diferença de altura garantiam que as cadeiras de trás sempre ficassem mais altas que as da frente. E é bem nessas cadeiras mais altas onde eu sento, lá no fundo. Mais precisamente duas fileiras de distância da porta, que fica do lado oposto ao quadro-negro.

     Foi só eu me sentar para recuperar o fôlego que meu amigo Jonas apareceu. O Jonas é um cara esquisito, muito alto, cheio de espinhas e com um cabelo claro sempre desgrenhado. Com um rosto forte, ossudo, com o maxilar quadrado e a testa ampla, Jonas era capaz de amedrontar quase todos que olhassem para ele de relance. E, do alto de seus um metro e noventa, ele era realmente aterrorizante. Mas não era bem assim; de fato, a expressão "gigante de coração bondoso" o descrevia muito bem, na época. Ele, que fora meu amigo desde a infância,  já nos salvara tantas vezes de encrencas que eu perdi a conta, e por isso eu o prezava muito. Apesar do jeito jagunço e da cara de mal, Jonas era muito mais do que demonstrava. Tinha um caráter incrível e tinha muito respeito com os outros. Mesmo sendo estranho do jeito que era, todos na sala tinham respeito por ele. Além do mais, ele sempre estava lá para me auxiliar quando as coisas ficavam difíceis e é por isso que eu gosto de dizer que as aparências sempre escondem quem uma pessoa realmente é.
— Dave, meu garoto! Tudo bem? — ele me deu um forte abraço.
— Jonas! Comigo tudo bem, e contigo? Como foram as férias?
— Estou bem, também — ele se sentou ao meu lado. — Minhas férias não tiveram nada de especial. Passei um tempo na casa de uns parentes, no interior. E as suas, como foram?
— Uma merda — respondi, divertido. — Fiquei mofando em meu apartamento.
     Depois de algum tempo após a aula começar, ele cochichou:
— Ei, ahn... minha família vai viajar nesse final de semana — ele começou, com aquela sua velha cara de alguém que estava prestes a pedir algo. — E bom, se não tiver planos, eu queria saber se não tem como eu dormir na sua casa por alguns dias e...
— Tudo bem, tudo bem, não fale mais — respondi. — Seu amigo Dave fornecerá morada a você enquanto seus familiares estiverem fora. Satisfeito? — falei, com um sorriso. Jonas, com seu jeito bobão de ser, disse um obrigado e se virou para o quadro negro, voltando a prestar atenção no professor.
     Era difícil não criar um apreço grande por Jonas, mesmo que por poucos minutos de conversa.

     Fomos liberados às onze e meia da manhã. Me despedi de Jonas, enquanto ele ia conversar com outros amigos. Fui para o ponto, peguei o ônibus e voltei para casa. Logo que cheguei, senti o cheiro delicioso de comida vindo de outros apartamentos. Voltei para o meu, com a barriga roncando involuntariamente de fome. Fui até a cozinha, liguei o fogão e tirei uma panela do armário. Despejei a água e o miojo nela e esperei os três minutos, até que estivesse pronto. Eu sempre evitava cozinhar coisas complicadas para não bagunçar a minha já desorganizada cozinha.
     Você deve estar se perguntando onde esta meu pai, ou minha mãe. Bom, minha mãe mora em outro bairro, e meu pai... acho que devo deixar bem claro que nunca o conheci. Minha mãe me disse uma vez que ele não estava mais no país, que era um estrangeiro e tinha vindo apenas a negócios; apaixonara se pela mulher estrangeira e depois voltou correndo para seu país quando descobriu que ela estava grávida. Claro que,  com o tempo, enquanto eu amadurecia, deixei de acreditar nessa desculpa esfarrapada. Pelo menos ele não nos deixou em miséria completa. Havia uma conta poupança em banco que ele deixou no nome da minha mãe. Sempre que precisávamos, retirávamos algum dinheiro de lá. Eu não odiava meu pai, apesar de tudo. Na verdade, não sentia nada por ele, seja lá quem ele fosse. A única coisa que eu queria era poder encontra-lo e gritar com ele. Descarregar todos os anos de frustrações que eu passei.
      Depois de almoçar, voltei à faculdade. Estudar não é fácil, ainda mais quando se está em um curso igual ao meu. Por sorte ou azar, eu sempre amei a física e matemática, e isso me garantiu uma vaga na faculdade. Também me garantiu apelidos maldosos como "CDF" e "Nerd", além dos preconceitos básicos. Mas eu nunca reclamei. Bom, talvez no começo achasse ruim, mas amadureci com o tempo e passei a ignorar tais alcunhas. Além do mais, quantas garotas não passaram de ano por minha causa? Quando tive consciência de que elas vinham até mim, pedindo para ensiná-las os cálculos, ou até mesmo deixa-las colar de mim nos testes, percebi que podia usar aquilo a meu favor. E usei. Poucas foram as garotas que passaram em branco por mim.
      Voltei para casa lá pelas sete horas da noite. Lá no horizonte o sol estava se pondo, mostrando seus últimos raios dourados, tornando o céu uma mistura de rosa e azul. O ônibus à essa hora não ficava tão cheio, por isso era fácil arranjar um lugar para sentar. Como de habitual, sentei no fundo e apreciei a paisagem. Desci no ponto de ônibus e andei as últimas quadras até chegar em  ao meu prédio. Peguei as correspondências, levei o lixo para fora, varri a casa e lavei a louça. Uma vida monótona misturando estudos e limpeza.
       Separei a correspondência em pilhas para as diferentes contas a pagar. Mas havia algo errado com uma das cartas. Ela era larga, de um azul fraco. Sem remetente, ou selos ou qualquer marcação. Apenas meu nome escrito em uma caligrafia muito sofisticada e fina. "Para Davion, um presente", dizia. Não era meu aniversário. Não era natal. Não havia motivos para um presente, mas não me questionei sobre aquilo. Afinal de contas, era um presente! E a quanto tempo eu não ganhava um, por menor que fosse? Então eu o abri.
      Deus me perdoe, eu o abri.

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