sábado, 1 de setembro de 2012

Capítulo 7 - Darion Farlane


      Aos primeiros raios da alvorada as espadas já cantavam sua canção, lançando aos quatro ventos o retinir dos metais em choque. Darion Farlane não só conhecia aquela música como também a tocava, fazendo de Fogo de Dragão nada mais do que um borrão vermelho e inconstante. O chão do vale, antes repleto de flores, era agora apenas um misto de lama e sangue: um terreno tão liso e inconstante que se revelava uma armadilha para aqueles que não tinham cuidado.
       Darion se defendeu de um golpe vindo da esquerda com o escudo, girou sobre os calcanhares para a direita e golpeou o inimigo, decapitando-o instantaneamente. Contornou o campo de batalha, observando seus soldados engajados nos inimigos e avistou um inimigo à altura. O brutamonte tinha dois metros de altura, os cabelos negros presos nas costas em um rabo de cavalo e trajava um simples corselete de couro fervido. As tatuagens negras em padrões espiralizados que iam do rosto até os dedos do pé eram o que o destacava dos outros guerreiros: um bárbaro com uma posição elevada na hierarquia de comando do exército.  Se eu o matar, talvez o resto deles desista da luta pensou Darion, contornando um cavalo caído, relinchando de medo e agonia. O bárbaro inimigo atacava impiedosamente um dos soldados de Darion, fazendo o pobre homem recuar à medida que os golpes de machado abriam caminho através de seu escudo. O bárbaro estava brincando com o homem. Podia tê-lo matado com um único golpe, mas preferiu despedaçar o escudo de madeira do homem, cortar os dois braços e depois a cabeça. Essa visão deixou Darion furioso. Ele investiu contra o gigante, gritando, e o golpeou. O bárbaro se defendeu com facilidade e lançou um contra ataque com tanta brutalidade que Darion foi empurrado para trás cambaleando. Uma grande lasca de madeira se desprendeu de seu escudo e caiu no chão, deixando apenas a outra metade grudada à bossa de ferro.
      O brutamonte recomeçou o ataque saltando por cima de um cadáver e atacando Darion, fazendo seu machado voar em direção do rosto dele. Darion conseguiu aparar o golpe com a parte restante do escudo, mas a força do golpe foi tão grande que este se estilhaçou, e a parte lateral de madeira que restava desapareceu. Ele se afastou de seu inimigo e se desfez do escudo, praguejando. Agora tinha as duas mãos no punho da espada. Ele não está mais brincando, pensou.
- Darion Farlane – grunhiu o brutamonte – Veio para provar um pouco do meu aço?
- Oras, vejam só, a criatura também fala! – respondeu Darion. – Tem um nome, ó besta feroz?
-Sou Tarth, o Terrível – Respondeu, dando palmadas no machado – E isto será a sua ruína.
— Tarth, ótimo — disse Farlane, recuando um pouco. — Agora sei que nome por em sua lápide.
      Tarth, apesar do tamanho, era rápido. Gritou de forma bestial e investiu contra Darion, fazendo chover golpes a esquerda e a direita. Darion se manteve recuado, defendendo-se dos golpes e avaliando o inimigo. Por duas vezes Garth esteve a ponto de separar a cabeça de Darion do corpo, mas ele fora mais rápido, se esquivando do golpe no último minuto.
-Você é bom mesmo – elogiou Tarth, ofegante.
-É, eu tive bastante tempo para treinar – disse Darion, também ofegante. –Mas não estou aqui para conversar, e sim terminar uma batalha.
       Não sei por que ainda estou avaliando ele, pensou. A tática desse idiota se baseia apenas em força bruta. Então Darion avançou pela segunda vez. Desviou de um golpe horizontal se agachando no último instante, e depois de um vertical tirando o corpo para a esquerda. Aproveitou a brecha na defesa de Tarth e decepou os dois braços do brutamonte com um único golpe de Fogo de Dragão.
-Eu odeio gente que brinca no campo de batalha – disse Darion, sério –Se você tiver que matar um homem, ao menos dê a ele uma morte rápida e limpa, sem sofrimento.
     Darion nunca foi um homem cruel, mas, naquele momento, enquanto cortava a garganta do bárbaro, que ria descontroladamente, ele sentiu algo que não sentia há muito tempo: prazer em matar um inimigo. Darion sabia o que era isso. Conseguia sentir a besta feroz se remexendo em seu interior, rugindo descontroladamente de prazer e excitação. Ele embainhou a espada e se afastou do corpo de Tarh o mais rápido que pôde. Podia sentir o coração batendo cada vez mais rápido, e seu sangue ficando cada vez mais quente à medida que a fera ia despertando.
     Darion correu o máximo que pode através do campo de batalha, ignorando os soldados que ainda combatiam os bárbaros inimigos, e subiu a encosta íngreme da colina. Atravessou a estrada de terra e adentrou a floresta. Sua pele, percebeu, estava ficando vermelha e quente, a ponto de fumegar em alguns pontos. Ele subiu um pequeno morro e se sentou em baixo de uma árvore no topo. Não vai ser dessa vez, velho amigo pensou Darion, com os olhos fechados. Ele estava se acalmando.
   Do topo daquele morro, Darion conseguia ver o campo de batalha. Seu exército havia, finalmente, derrotado os inimigos e agora estava se aglomerando ao redor do rio Darros. Os primeiros raios de sol brilharam por sob a ravina, alumiando o massacre que acabara de ocorrer. Pela segunda vez naquele dia, Darion desceu a encosta íngreme até o campo de batalha e avaliou os estragos causados. Tão cedo, e tantos mortos... pensou, virando um cadáver com a sola de sua bota de couro enlameada.
— Jonan... - Darion ficou sem reação por um momento. Seu velho amigo fizera a travessia com um rosto estampado por um meio sorriso sereno, como alguém que morre sabendo que não deixou nada pendente para trás, alguém que morreu cumprindo seu dever. 
    A flecha havia atravessado o pescoço do homem, rompendo carne e ossos, emergindo rubra de sangue do outro lado. Darion se ajoelhou ao lado do corpo do amigo. Pousou a espada no chão ensanguentado e juntou as mãos para uma prece. Veremos-nos na próxima vida, velho amigo pensou.
     Darion levantou, pegou sua espada e a embainhou. Não era hora de luto. Não ainda.
— Pai — as botas de Damien ressoaram pesadamente, anunciando sua chegada - Perdemos oitocentos homens, dos quais cinquenta eram de nosso... - o rapaz fez uma pausa, olhando para o corpo aos pés do pai - tio Jonan... — ele ficou sem reação por um momento - Cinquenta e um... - anunciou, infeliz.
— Damien, diga aos homens que ficaremos aqui hoje. Mande-os enterrar os mortos e cuidar dos feridos.
-Sim, pai – disse Damien, dando meia volta e se dirigindo até os homens, que agora se aglomeravam perto do rio. Alguns lavavam as espadas, outros bebiam água. Alguns até mesmo jogavam água nas feridas abertas, com medo de que elas infeccionassem.

     A travessia do rio pela Dourada fora tranquila. Darion conduziu seus homens pela grande ponte, mas logo que atingiram a borda da floresta de Heraiss, os inimigos saíram de por entre as árvores, atingindo a retaguarda do exército de Darion com feracidade e os empurrando colina à baixo, onde se desenvolveu a batalha. Mesmo deixando a retaguarda e a vanguarda guarnecida por seus melhores guerreiros, protegendo o núcleo inexperiente de guerreiros, a maioria esmagadora de perdas se dera na parte do exército rural — assim chamado principalmente pelo fato de ser composto por fazendeiros e camponeses. —, onde quase a metade dos homens morrera.
       Essa gente não foi feita para a guerra pensou, balançando a cabeça em desaprovação.
O exército era precário, formado principalmente por fazendeiros das terras ao redor de Sídross; vestidos com corseletes de couro e munidos de foices, tridentes de feno e machados de cortar lenha, eles marchavam em direção à guerra sem treinamento algum. Alguns nem sequer proteção tinham. O rei de Sídross relutara em mandar homens para quebrar o cerco a Rardras, pois temia que exército principal de Barath pudesse atacar a qualquer momento. Mas, por fim, cedeu às exigências dos grandes mercadores, que dependiam do comércio com Rardras para fazer sua fortuna, e recrutou os camponeses das terras ao redor de Sídross. A única perda efetiva que ele sofrera fora Darion, que de longe era seu comandante mais experiente. O rei, astuto como uma raposa, preferira despachar seu general e maquiar um exército precário a mandar sua força verdadeira e bem treinada. Assim, a classe mercantil se sentia feliz, acreditando que uma boa quantia de bons homens havia sido convocada para livrar Rardras dos inimigos, e o rei continuava com Sídross bem defendida, mantendo seus melhores homens nas ameias das muralhas.
     O pequeno exército de camponeses havia sido formado às pressas. Quando Darion Farlane recebeu a notícia de que não receberia mais do que um punhado de fazendeiros inexperientes, ele juntou um exército pessoal, uma pequena tropa de seiscentos e cinquenta homens: trezentos lanceiros, duzentos cavaleiros e cento e cinquenta arqueiros. Todos trajando cota de malha, peitorais de aço e bruneas. Esses homens eram todos vassalos da casa Farlane e Darion não teve dificuldade em comandá-los. O problema eram os camponeses: dois mil e quinhentos homens que nunca estiveram em batalha; dois mil e quinhentos homens sem nenhuma experiência; dois mil e quinhentos homens para cuidar e alimentar. Darion odiava aquilo. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, mais da metade daqueles pobres homens faria a travessia no campo de batalha decisivo, diante de Rardras, nos campos verdes.
    
   Ao cair da noite as tendas já estavam armadas e os feridos sendo tratados dentro de um pavilhão formado por lonas amareladas. Darion estava em sua tenda, estudando um mapa, cercado por oficiais de seu exército particular.
— Com um pouco de sorte, chegaremos à Rardras em dois dias.
— É uma boa estimativa – disse Galard. — Mas e depois? Como vamos quebrar o cerco?
— Com um exército assim, confesso que não sei. Mas, primeiro, vamos nos preocupar em chegar lá – disse Darion, apontando para o mapa. — Galard, quero que reúna seus cavaleiros e mande batedores para sondar a rota ao nascer do dia. Pax e Finn, reúnam vinte arqueiros cada. Pax, você ficara ao sul, dentro da floresta de Heraiss, e Finn, você vai levar seus arqueiros ao norte. Vocês e seus homens serão nossos olhos esta noite, e soarão a trombeta ao menor sinal de inimigos. Entendido? – os dois homens balançaram a cabeça em concordância. — Ótimo, então vão.
    Os três homens saíram da tenda, deixando Darion sozinho, analisando seu mapa à luz precária que as pequenas velas de cera forneciam.
— O rapaz ainda não sabe de nada, não é, pai? — a voz veio de uma parte mal iluminada da tenda, onde apenas a silhueta de Damien podia ser distinguida.
— Não. Mas fiquei sabendo que ele está se dirigindo para o oráculo em companhia do novo chefe tribal dos orcs, Darokk.
— Então em breve ele saberá da verdade.
— Eu gostaria que ele continuasse ignorante quanto à tudo isso — disse Darion. — Mas parece que vamos precisar de toda a ajuda que conseguirmos. Que os deuses nos ajudem...








Capítulo curtinho, só pra marcar minha volta (de novo) ao mundo da escrita. Eu sei que está uma merda e tudo mais, mas peço um pouco de paciência, que logo os capítulos serão maiores, melhor detalhados e com uma história bem melhor elaborada.
E não se preocupem, não vou abandonar a escrita em primeira pessoa. É só que agora a história vai ficar pulando da perspectiva do Dave para a perspectiva de outros personagens.

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