sábado, 14 de janeiro de 2012

Capítulo 5 - A verdade nua e crua.

Recobrei a consciência deus-sabe-quando depois de apagar pela última vez. Não é um sonho, afinal de contas, pensei comigo mesmo, e meus olhos começaram a umidecer. Poucas foram as vezes que eu chorei na vida, e aquela estava prestes a ser uma delas. Darokk roncava alto, feito um motor, ao lado da minha cama. Estava assim há quase dois dias, desde que me trouxera, correndo, explicou Ginzo. — Ele correu muito — disse o médico, mais tarde. — Está exausto até a alma.
Me virei na cama e dormi. Eu não tinha como saber, mas achava que meus olhos estavam vermelhos sob as pálpebras. Tive um sonho estranho onde eu corria por um beco em uma cidade gigantesca. Corria porque estava sendo perseguido por pessoas com foices, tridentes de feno e facas. Estavam furiosos, gritavam a plenos pulmões "monstro, monstro!", mas eu não conseguia entender porque. Acordei suado, com medo. Olhei para o lado e lá estava Darokk, também acordado, me observando. — Pesadelo? — disse. Balancei a cabeça, em afirmação. Permaneci na cama até me lembrar. — Jonas! — exclamei. Foi a vez de Darokk balançar a cabeça. — Não se preocupe, eu vou encontrá-lo. Senti o coração pulsando mais rápido, forçado pelo medo e a ansiedade. — Então ele... ele... não voltou?! — o pavor estava claro em minha voz. Darokk não falou nada, mas sua expressão parecia dizer calma. Não falei mais nada, pois Ginzo entrou na sala carregando uma vasilha de madeira que transbordava um estranho líquido vermelho. O mesmo que me tratara por dois dias. Fiz uma careta e torci o nariz. — Ora, vamos — disse Ginzo. — Não seja uma criancinha. Isso, bom — ele virou o recipiente em minha boca e eu absorvi até a última gota. Quase vomitei tudo. — Precisamos procurá-lo! — falei, depois de ter engolido tudo.
— Er-hem — Ginzo limpou a garganta com um alto pigarro e falou como se nada tivesse acontecido — Você precisará descansar pelo menos por mais um dia. Nenhuma atividade física muito desgastante para você. Foi difícil de extrair o veneno, mas não há nada com o que nos preocuparmos por enquanto.
— Me desculpem, mas não posso ficar aqui descansando enquanto Jonas está lá fora.
— Irei procurá-lo ainda hoje. Por agora, preocupe-se apenas em repousar — disse Darok, levantando de sua cama. Recostei um braço em frente ao rosto, cansado.
— Tudo bem, mas traga-o em segurança, ok?
   Ele acenou com a cabeça, se virou e saiu da tenda.
   Cada minuto era uma eternidade para mim e as horas pareciam não passar. Minha única companhia eram os pássaros estranhos de Ginzo, empoleirados em uma saliência que saia da parede na outra extremidade do quarto. Um deles, o laranja, se chamava Ykka, o outro, o azul, se chamava Kyro, e ambos tinham longos chifres curvados que saiam de suas pequenas cabeças. De vez em quando eles grasnavam um para o outro, e então ameaçavam se bicar. Abriam as asas em desafio e se encaravam por longos minutos. Aquilo criava uma distração pequena para minha mente, mas logo eu lembrava de Jonas e em como eu fora estúpido, arrastando-o para este mundo, que agora certamente era seu túmulo.
     O pensamento de culpa varria qualquer outra ideia e me deixava desolado, com uma vontade enorme de gritar a raiva e desespero que haviam dentro de mim. Aquele sentimento me matava por dentro, mas a esperança de sair daquele lugar e voltar para o aconchego de meu apartamento mantinha minha sanidade no lugar em que ela deveria ficar, ou ao menos ficava. Fora tudo um desastre enorme e agora, como se por consequência, eu tinha que ficar ali, deitado naquela cama o dia inteiro apenas assistindo o dia passar, à medida em que as sombras dos objetos dançavam na parede próxima a mim. Ginzo fez uma aparição aquela noite, me convidando para jantar. Vesti uma camiseta de linho branca — a que eu viera a este mundo vestindo estava arruinada — e calcei meus tênis. Segui Ginzo para fora da tenda e andamos um pouco até chegar a um espaço a céu aberto, onde se estendiam duas longas tábuas de madeira sobre cavaletes. Mais ao fundo haviam fogueiras assando grandes costeletas. Orcs e trolls formavam filas para conseguir um pouco de carne. Depois voltavam para as mesas e se serviam das várias tigelas espalhadas ao longo delas. Depois de se sentar, comiam e em seguida levavam os pratos para um barril de madeira cheio de água turva. — Alguma festividade? — perguntei a Ginzo. Ele me olhou confuso. — Por que seria? — Bom... todos estão comendo nessas mesas longas, como se fosse algum festival ou algo do tipo. Ele riu. — Não, não, isso acontece toda noite — e percebendo meu olhar confuso, ele continuou. — Sabe, muitos de nós não tem dinheiro para comprar comida, ou mesmo a... aptidão para caçar sua própria — e para enfatizar, apontou para algumas pobres criaturas aleijadas. Alguns não tinham um dos braços, outros não tinham uma das pernas. Alguns, mais infelizes, não tinham nem ao menos um dos pares. — Então toda noite trazemos os excedentes de nossas criações e de nossas colheitas e damos a eles o que comer — ele pareceu triste. — Aos olhos do criador somos todos iguais, não vejo razão para alguém pensar de maneira diferente. Este é um lugar onde todos são tratados de tal forma, com igualdade. Aqui todos podem comer, não importa a raça ou religião. Aqui todos podem saciar a necessidade básica a qual nenhum ser vivo deveria ser submetido. Aqui matamos nossa fome. Fiquei em silêncio, comovido. Para alguém como eu que viera de um lugar que eu considerara tão avançado, ter uma lição de alguém que viera de um lugar que até então eu considerara atrasado, era algo no mínimo emocionante. Também fiquei um pouco embaraçado pelo meu mundo. Um mundo onde governos gananciosos exploravam seu povo e depois o descartava à própria sorte, para morrer nas sarjetas dos prédios gigantes de empresas multi-nacionais. Pensei nas crianças, adultos e idosos que provavelmente estariam passando fome naquele exato momento, lá na minha realidade, e senti a tristeza e a dor deles. — Tudo bem, Dave? — perguntou Ginzo. — Sim, sim. Só estava lembrando do meu mundo — falei. Ele não fez perguntas, felizmente. Apenas me conduziu até o final de uma das duas mesas, onde havia uma pilha de pratos. Pegamos um e nos servimos. Sentei ao lado de um grande orc de tapa-olho, que pareceu surpreso com minha presença; ele olhou para mim, acenou com a cabeça de maneira cortês e voltou a atenção para o prato em sua frente. Jantei em silêncio ouvindo algumas conversas paralelas, irrelevantes, e, depois de por meu prato no barril, voltei para a tenda de Ginzo. Não consegui dormir naquela noite. Quando eu estava prestes a pegar no sono, algo me inquietava e eu me remexia na cama, procurando uma forma mais confortável para deitar e escapar dos milhares de mosquitos que faziam fila para sugar meu sangue. Por vezes tive alucinações e pesadelos, nos quais eu olhava para a parede oposta a mim e via uma sombra se movendo. Houve um momento em que Jonas apareceu. Seu lado esquerdo inteiro estava... faltando. O rosto dilacerado, uma órbita vazia, um coto onde uma vez houvera um braço, mordidas e sangue para todo o lado. Desnecessário dizer que depois desse pesadelo, definitivamente não consegui mais dormir. Nem mesmo o filme mais aterrorizante que eu já assistira na vida não conseguiria reproduzir o terror daquele momento. Então, finalmente, o sol se ergueu lento e preguiçoso aquela manhã. Poucas nuvens o acompanharam aquele dia, e o céu estava de um azul límpido como eu jamais havia visto antes. Era uma pena que todas as circunstâncias conspirassem a favor de um dia triste, solitário.
    Ginzo me deu alta logo de manhã, e eu saltei daquela cama como se ela estivesse envenenada. Passei o dia inteiro caminhando pelo vilarejo. Aprendi coisas novas e observei o dia-a-dia de orcs e trolls. Eu andava em silêncio pela vila, surpreendentemente maior do que eu esperava. Estava curioso com a cultura deles. As crianças corriam ao redor de mim quando eu passava, faziam perguntas como "Quem é você?", "Por que você é rosa?", "Por que é tão pequeno?" e eu respondia eles, na medida do possível. Não parei para brincar com eles, apesar de elas implorarem. Apenas recusei com o melhor sorriso que tinha e continuei andando. Meu humor estava péssimo. Os mais velhos, diferente das crianças, costumavam tomar distância de mim, olhando de cara feia enquanto eu passava. Havia, porém, alguns que me saudavam com a cabeça, como se me desejando um bom dia, e eu retribuía o gesto. Eu estava fascinado, mas não tanto quanto eles, pela minha presença. Acho que eles não viam alguém como eu, humano, em um bom tempo. E então vi Darokk andando em minha direção. Ele tinha algo nas mãos. Andava de cabeça baixa. Se aproximou e parou alguns metros, como se fosse incapaz de continuar. — O que foi, Darokk? — perguntei, temendo a resposta. Acho que no fundo eu sabia do que se tratava. — O que foi?! E então ele abriu a mão e me mostrou o pedraço de camiseta rasgada e ensanguentada. O chão sumiu abaixo de meus pés. Era como se a última ponta, o último nó de esperança tivesse sido desatado. Eu estava sozinho agora, totalmente por minha conta, e para piorar, meu melhor amigo estva morto. E tudo por minha culpa.
— Não.. não... não! — caí no chão, inconsolável, tremendo e soluçando.
     Eu agora era um homem despedaçado, arrasado. Uma sombra sem propósitos ou objetivos, sem esperança alguma. Por dias eu vaguei por aquela aldeia, sem rumo ou motivo. Apenas andava, como se aquilo fosse melhorar ou até mudar alguma coisa. Com os olhos vidrados e sem vida eu rondava pela cidade, passando por seus cidadãos, que cochichavam em voz baixa sobre mim.
Então, numa tarde ensolarada, enquanto eu sentado sob a sombra de uma árvore, Darokk se aproximou de mim e se sentou ao meu lado. — Dave, você precisa superar isso – disse.
Eu não respondi nada. Continuei cabisbaixo, olhando para uma trilha de formigas.
— Dave, por favor — pediu Darokk. — Ao menos olhe para mim quando estou falando contigo!
— Ele está morto, Darokk — finalmente respondi. — Morto. E a culpa é minha — minha voz estava desanimada, monótona, e cada palavra exibia meu cansaço mental.
— Como pode dizer que é sua culpa?
— É minha culpa ter por ter trazido ele até aqui, é minha culpa por quase ter morrido duas vezes e é minha culpa por ter feito você abandonar ele no meio do nada.
— Então, nesse caso, não acha que é minha culpa por deixar ele para trás?
— Não, Darok. Você apenas estava tentando me salvar, e eu sou grato a você por isso...
— Olha Dave, se te fizer se sentir melhor, eu pensei num jeito de você levar sua jornada adiante.
— Jornada? — falei em tom de deboche.
— É — respondeu, firme. — Agora preste atenção. Em minhas viagens eu encontrei um sábio capaz de prever o futuro. Ele vive em uma montanha ao norte daqui. Talvez se você contar sua história ele possa te ajudar a voltar para casa. E como líder de minha aldeia, posso providenciar tudo o que você precisa para a viagem.

Olhei ao redor, esperando algum sinal, alguma pista do que eu deveria fazer. Observei Ginzo entrando em sua casa, logo à frente, arrastando pelo chão de terra uma caixa cheia de frascos.
— Não sei, Darokk — respondi, sincero. — Por enquanto não sei o que vou fazer. Vou pensar essa noite e amanhã eu te respondo.
— Tudo bem, Dave — ele pôs a mão em meu ombro. — Só quero que saiba que você é meu amigo aqui, e não está sozinho.
— Muito obrigado, Darokk — respondi. — De verdade.
Ele assentiu com a cabeça e se levantou, me deixando sozinho, sentado sobre as raízes da árvore.
Eu ficara hospedado esse tempo todo na casa de Ginzo que, além de uma espécie de hospital, era também abrigo para os sem-teto. Passei o resto de tarde pensando sobre o que Darokk havia me dito, e voltei para a casa de Ginzo ao cair da noite, quando a janta estava sendo servida no pavilhão nos fundos. Aparentemente, era o doutor o responsável por alimentar os famintos. Sentei no banco de madeira, ao lado de dois orcs maltrapilhos e recebi a comida daquela noite: uma espécie de sopa de legumes com carne. Comi algumas colheradas e logo descobri meu estomago em nó, o que me fez perder o apetite.
Deixei a mesa e fui para minha cama, onde fiquei quase que a noite inteira fitando o teto, pensando no que eu deveria fazer. Eu sabia que não havia mais nada mais a ser feito por Jonas e a proposta de Darokk era realmente tentadora, mas não sabia se estava pronto para mais uma “aventura”. Depois de algum tempo pensando, acabei cedendo à proposta de Darokk, que veio me visitar no outro dia.
— É a escolha certa, Dave. Não podemos fazer mais nada por Jonas — ele disse. — Eu mesmo o levarei, quando a Drakamash estiver terminada. Então deu um sorriso e saiu da tenda. Mais alguns dias se arrastaram, monótonos e angustiantes, até que a noite da Drakkamash. Me encontrei sentado numa espécie de arquibancada de madeira, armada na praça central da cidade. Haviam muitos orcs e trolls, reunidos pelo evento mais importante da vida de muitos ali. Eles estavam separados, como Ginzo explicou, por famílias; na frente, na parte mais interior do círculo que se formara ao redor de onde iria ocorrer o evento, estavam os lideres dos clãs maiores. Mais atrás vinham os membros dos respectivos clãs. Mais exterior ao círculo ficavam os clãs menos importantes, e, finalmente, os mais distanciados do meio eram aqueles que não pertenciam a clã algum, que ou eram os últimos de sua linhagem ou apenas vagabundos renegados.
Eu estava exatamente no meio, com Ginzo. Não pertencíamos a nenhum clã, mas havíamos ganhado lugares de honra para assistir o evento; Ginzo por ser o médico da aldeia e eu por ser amigo de Darokk. O céu estava limpo e as estrelas brilhavam sobre nossas cabeças. No centro daquela confusão de vozes e barulhos, uma grande fogueira rugia, fornecendo luz ao ritual que acabara de começar: dois grandes orcs se aproximaram dela e se ajoelharam, curvando suas cabeças para as chamas. Então apareceu outro orc, usando uma espécie de manto, muito semelhante à batina dos padres do meu mundo. Muito semelhante, pensei, intrigado. Ele carregava um frasco com um liquido pegajoso dentro. Ele o derramou numa das mãos e sem cerimonia esfregou na cabeça de um dos orcs. — Do fogo vem nossa comida, do fogo vem nossas espadas — enquanto falava, ele despejou mais óleo na mão e esfregou a cabeça do outro orc. — Do fogo vem o calor que nos mantém aquecidos, do fogo vem a vida que temos. Que o fogo seja testemunha do que aqui se realiza, e que o fogo concorde com a escolha! — ele levantou os braços num gesto dramático, que foi acompanhado pelos gritos e ovações do povo. E então foi dado o inicio da Drakkamash pelo sacerdote. Por um momento angustiante em que quase gritei, as cabeças dos dois orcs foram empurradas em direção ao fogo e lá permaneceram por alguns segundos, antes de o adversário de Darokk começar a tremer e instintivamente retirar a face da fogueira. Um baixo suspiro de surpresa pôde ser ouvido vindo de todas as direções da platéia. E então o próprio Darokk foi libertado do aperto do sacerdote, que instantes antes segurava seu pescoço pela nuca, e ele recuou a cabeça, também. E então uma parte da platéia explodiu em gritos de alegria. A primeira parte do ritual estava concluída. — Agora — gritou o sacerdote. Notei que seu rosto branco não era pintado, mas sim coberto por uma máscara feita do crânio de algo, alguma coisa. — vamos à segunda parte, onde Darokk e Turion deverão falar com o coração e professar aquilo que eles tem em mente para o futuro de nossa aldeia! E então os dois contestantes deram um passo a frente, de costas um para o outro. Darokk, como ganhador da primeira etapa, falou primeiro: — Peço que me ouçam, povo de Karalash! Estou aqui hoje diante de vocês não apenas como um candidato ao cargo de chefe, mas como um cidadão desta comunidade! Vocês com certeza lembram de meu velho pai, que comandou nossa nação com honra e respeito. Respeito não apenas aos orcs, mas a todos os povos! E é isso que pretendo estender enquanto eu for vivo, caso me elejam seu chefe: a paz, o progresso, o futuro que nossos descendentes merecem! Sem ódio. Sem dor. Sem ressentimentos. Uma nação, apenas uma nação, unida pelo bem maior de todos! — surpreendentemente, a reação da platéia não foi o que eu esperava. Muitos aplaudiram e alguns ovacionaram com vontade, mas uma boa parcela se manteve quieta, como se imparcial ou até mesmo discordante em relação ao discurso de Darokk. — Obrigado — ele acrescentou. Fez uma mesura para os quatro ventos e então deu um passo para trás, deixando Turion entrar em foco. — Povo de Karalash! Sou Turion, do clã Mordrik, e estou aqui para ser seu novo líder! Aquele que irá guiar nossa nação rumo a um novo amanhecer! Um amanhecer de glória, resplendor e honra, como nos dias primevos de nosso povo, onde nós eramos uma máquina de guerra poderosa e imbatível! Serei aquele que trará nossas terras à leste de volta, aquele que derrotará os humanos, aquele que mandará a mensagem à todos os povos: nós somos os mais poderosos — e então ele fez uma mesura e deu um passo para trás. E mais uma vez fui surpreendido: uma explosão de vivas e palmas ribombou. Era apenas uma parcela um pouco maior do que a anterior comemorando, mas ainda sim fazendo mais barulho que a última. E então veio o terceiro e último teste. Um homem foi trazido até perto da fogueira. Ele tinha as mãos atadas às costas e um olhar abatido no rosto. — Este, senhores, é um criminoso — disse o sacerdote, apresentando o homem à multidão. — Nós o conseguimos da cidade mais próxima, do Porto das Ilhas, onde ele se encontrava preso em um calabouço esperando julgamento. Como sabem, agora cabe a vocês o julgamento, e cada um terá direito a uma pergunta. Pensem bem. Turion, poderá fazer a pergunta primeiro, depois será a vez de Darokk. Esta etapa, me foi explicado, funcionava da seguinte forma: um condenado era trazido ao centro. Então um dos candidatos se afastava, colocava uma espécie de tampão nos ouvidos e esperava enquanto o outro fazia uma única pergunta. Depois disso, o candidato, que não poderia, de jeito algum, ouvir a pergunta de seu concorrente, dava um passo a frente e fazia ele mesmo uma única pergunta, enquanto o outro cobria os ouvidos. Ao final disso, ambos teriam que escrever num papel a sentença final do réu, julgando o criminoso, decidindo seu destino. Darokk se afastou e tampou os ouvidos com algo que lhe foi entregue. Turion se aproximou do homem e perguntou: — Qual foi seu crime? — simples e direto. — Roubei, senhor — disse o homem cabisbaixo, de forma humilde. Então Turion saiu de cena e entrou Darokk, que avaliou o homem dos pés à cabeça e perguntou: — Por que? — o homem ficou confuso por um momento, mas então a dúvida desapareceu de seu rosto e ele pareceu entender. — Porque minha família estava com fome, senhor — e lágrimas rolaram face abaixo, descendo suaves sobre a sujeira que impregnava as bochechas do homem. Darokk aquiesceu com a cabeça, entendendo o sofrimento dele. Não basta apenas fazer as perguntas, pensei elas tem de ser as corretas. Então um papel foi entregue a cada um, e ambos escreveram nele suas sentenças. O sacerdote recolheu e leu, depois devolveu aos orcs. — Agora leiam em voz alta o que escreveram. Darokk primeiro Darokk deu um passo em direção ao homem e, imperativo, disse: — Olhe para mim — e o homem o obedeceu. — Você vai voltar para casa agora. Levará ouro para comprar terras. Cultivará hortas e cuidará de rebanhos, e da terra tirará seu sustento e de sua família. O homem caiu de joelhos. Sabia que aquilo era apenas a simulação de uma sentença, mas a bondade e generosidade de Darokk o comoveu. Mais lágrimas rolaram. Então Turion deu um passo a frente. — Você é um ladrão — ele disse, insensível. — Terá sua mão esquerda cortada e caso volte a roubar, terá a mão direita também cortada. Alguns participantes da plateia concordaram com a decisão, o que me deixou repugnado demais para olhar aqueles que apoiavam decisão tão horrível. O sacerdote analisou os papéis onde estavam escritos as sentenças e concluiu que eles não mentiam quanto a elas. — A cerimonia está encerrada! — disse. — Agora os líderes das sete famílias irão depositar seu voto nesta urna e um novo líder será escolhido. Sete orcs escreveram em papéis o nome daquele que julgaram, através dos três testes, ser mais apto a comandar a aldeia e toda a nação órquica. Então foram até uma urna e depositaram seus votos. Depois do último deixar seu papel, o sacerdote foi até a urna e retirou os sete bilhetes e leu em voz alta. — Turion, primeiro voto. Darokk, segundo voto. Turion, terceiro voto. Darokk, quarto voto. Darokk, quinto voto. Darokk, sexto voto. Darokk, sétimo voto — cinco a dois. Por unanimidade, Darokk foi eleito o chefe. Ele sorriu de orelha a orelha e correu para abraçar um velho orc de barba grisalha. Fiquei feliz por ele, mas estava exausto. Resolvi que daria os parabéns no dia seguinte. Comentei algo a Ginzo de que iria dormir e ele deu um breve tchau, para depois sair em disparada na direção de Darokk. Então andei até a casa de Ginzo e pulei na cama que me abrigara pelos dias em que eu estivera ali. Caí num sono profundo e perturbado, com pesadelos atormentando minha mente.

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