O vento soprou do sul, frio,
fazendo as bandeiras presas às hastes de metal rodopiarem suavemente. As
bandeiras, notou Aziel, eram das três famílias que dominavam a cidade dos
anões: Yggdrar, Orlin e Helfjar.
Aziel perambulou pelo muro da fortaleza, entediado, enquanto o sol ia lentamente se pondo no horizonte. Como alguém com o status social dele havia sido mandado para a guarda da cidade, ele não sabia. E era exatamente sobre isso que ele estava resmungando quando percebeu seis pessoas se aproximando do portão oeste, à galope.
Aziel perambulou pelo muro da fortaleza, entediado, enquanto o sol ia lentamente se pondo no horizonte. Como alguém com o status social dele havia sido mandado para a guarda da cidade, ele não sabia. E era exatamente sobre isso que ele estava resmungando quando percebeu seis pessoas se aproximando do portão oeste, à galope.
Ele desceu o lance
de escadas mais próximo e correu até o portão, que onde uma das seis figuras batia
insistentemente na madeira e gritava para que abrissem as portas. Aziel se
aproximou do portão e gritou:
— Quem
é?
— Uthrin Helfjar — veio a resposta. — Abra o
portão!
Ele abriu a pequena portinhola localizada na
porta direita e analisou o rosto barbudo do outro sujeito. Reconheceu na hora
seu velho rival, Uthrin Helfjar, e subitamente sentiu uma ponta de vergonha.
Uthrin se tornara um emissário, herdara as minas do pai, tinha conquistado
muito prestigio e reconhecimento naquela comunidade, enquanto Aziel fora
negligenciado pelo pai e mandado para a guarda da cidade como um simples peão
descartável. Mas nada mais incomodava Aziel. Ele se conformara com seu
destino.
Ele esperou a chagada de outros guardas e
então juntos ergueram a pesada tranca. Puxaram as portas duplas de carvalho e
permitiram que os anões do lado de fora entrassem.
— Já era
sem tempo — bufou Uthrin, por entre os dentes. Ele e os outros cinco passaram
pelo portão e pararam no pátio de treinamento, onde foram rodeados pelos
guardas da cidade. Foi só então que Uhtrin percebeu a presença de Aziel — Aziel, quanto tempo! — ele deu palmadas nas costas do outro anão, como se
fossem velhos amigos. Isso tudo, ele percebeu, seria mais uma tentativa de
Uthrin de humilha-lo. — Resolveu largar a herança de seu pai para trabalhar na
guarda da cidade? — disse, sarcástico.
— Não
interessa a você, Uthrin — disse Aziell, ríspido e mal-humorado, enquanto se virava para
subir a escadaria e voltar à sua ronda.
— Olhe o
jeito como fala comigo, garoto — respondeu Uhtrin, a voz tomando um tom
sombrio. — Vire-se, ainda não terminei com você.
Tendo
consciência do status de Uthrin e de sua própria, Aziel se virou, contrariado, e o encarou.
— Ótimo.
Pelo menos você tem bom senso. Quero que vá e busque seu pai. Avise-o que
haverá uma reunião dentro de uma hora. Diga que as três famílias se reunirão.
— Não
posso largar meu posto... — tentou protestar, mas foi interrompido.
— Agora
pode. Todos aqui presentes — e Uthrin gesticulou em direção aos presentes, que
assistiam a tudo calados. — São testemunhas que sou responsável por sua
ausência. Agora, vá.
Aziel não esperou mais nenhuma palavra. A mera presença de Uthrin já era suficiente
para tirá-lo do sério. Por isso, girou nos calcanhares e se dirigiu à cidade. A
gigantesca fachada, esculpida na rocha, era como a de um prédio, e já recebia os
primeiros raios de sol. Os anões que iam acordando abriam as portas para as
sacadas, de forma que o ar matinal fluísse para dentro de
suas residências abafadas. Havia uma cruel e impiedosa hierarquia escondida por
trás daquela bonita fachada, e Aziel havia a conhecido desde que ingressara
na guarda da cidade. Ele mesmo cometera injustiças tremendas sobre ordens das
famílias maiores.
Quinhentos
metros eram o que separavam a muralha externa da cidadela. Aziel cobriu o
espaço, um vazio a céu aberto com apenas uma pequena cabana de madeira que
servia de abrigo à guarnição da muralha, em ritmo apressado. Em dias normais,
aquele espaço era abarrotado: tendas, barracas, caravanas, humanos e todos os
tipos de criaturas que vinham de todos os cantos do mundo até a Cidade Central
para vender suas especiarias. Não era mistério algum que a terra dos anões era
infértil e imprópria para a vida, mas os anões deram a volta por cima:
descobriram riquezas além da imaginação em suas montanhas. Claro que para eles
aquilo não valia nada, mas logo os povos começaram a oferecer tudo por aquele
punhado de pedras brilhantes, e os anões perceberam o poder que tinham nas
mãos. Em pouco tempo eles haviam comprado tudo o que precisavam, e não mais
viviam como nômades ou mercenários.
Cansado
pela caminhada, Aziel atravessou o arco ricamente decorado por estatuas da
entrada do salão, e se encontrou diante de uma multidão de pessoas andando
apressadas de um lado para o outro. Mais um dia comum na cidade Central. A
montanha, percebera Aziel há muito tempo atrás, era como um grande formigueiro,
e os anões eram as formigas.
Ele se dirigiu à direita do grande salão,
indo em direção a uma escadaria com a entrada em arco, guardada por dois homens
segurando lanças.
— Possui
permissão, senhor? — perguntou um dos soldados, se endireitando, tentando
passar um ar de autoridade.
Aziel
não falou nada, apenas mostrou um pequeno pergaminho escrito em runas Teéricas. Os
guardas descruzaram as lanças e permitiram que Aziel fosse em frente. Ele
subiu um longo lance de escadas em espiral, passando por portas que iam do 1
até o 249. Parou no número 250, onde deu leves pancadas ritmadas na madeira. A escadaria continuava mais alguns metros
acima, mas ele chegara a seu destino: estava em casa.
A porta
foi aberta por um dos serviçais do pai: um anão atarracado, de rosto fino e
atento feito o de um rato.
— Mestre
Aziel? — indagou o mordomo, surpreso, fazendo uma reverencia para seu mestre. — O que faz o senhor aqui?
— Negócios — balbuciou, como que para si mesmo. — É, negócios. Onde está meu pai?
— O
Mestre se encontra em seu escritório, trabalhando... — ele hesitou por um
momento, vendo as vestes sujas de Aziel, quando este entrou. As botas, de
cano longo, fizeram um rastro de barro enquanto ele se dirigia ao gabinete de
seu pai. O pequeno mordomo apenas balançou a cabeça, desanimado, e fechou a
porta.
Aziel
teve de atravessar três ou quatro cômodos antes de encontrar a porta lustrosa e
altamente decorada do escritório de seu pai. Dessa vez ele não bateu. Apenas
girou o trinco e entrou, sem cerimonias. Do outro lado da sala, atrás de uma
grande escrivaninha, estava seu pai: um anão vigoroso e barbudo, mas que tomara
um ar intelectual graças aos pequenos óculos de leitura apoiados na dobra do
volumoso e grande nariz vermelho. Aziel deu alguns passos à frente e parou no
centro da sala, onde olhou fixamente para o pai, esperando alguma reação do
velho.
— Aziel — disse o anão, sem tirar os olhos do pergaminho que tinha à frente. — Não me
lembro de ter lhe dado permissão para retornar para casa.
Aziel
deu uma risada seca, sem emoção, e então falou:
— Uthrin
Ulfjar o está convocando. Ele me mandou aqui para que lhe avisasse que haverá
uma reunião daqui a meia hora, mais ou menos — ele andou até uma mesinha de canto, onde havia uma garrafa com um
líquido azul e pequenos copos de cristal virados para baixo. Aziel pegou um e
se serviu. Virou a dose do líquido e o sentiu queimando seu interior à medida
que ia descendo. No fim, apenas o gosto de amoras silvestres ficou em sua boca. — Caramba — disse, deliciado. — Fazia tempo que eu não provava as misturas de
Cram do sul...
O pai
não esboçou reação alguma, apenas falou, em voz distraída:
— Você
sabe, Aziel, que eu nunca neguei nada aos meus filhos — disse Asmon, olhando
para o filho pela primeira vez naquele dia. — Você, mais que qualquer outro,
sabe disso. Você é meu filho mais velho. Nada. Nunca neguei nada — havia cansaço
em sua voz. Ele suspirou, tirou os pequenos óculos e os repousou na mesa à
frente. — Eu só pedi uma coisa: consideração. Você nunca teve consideração por
mim, nunca levou a sério seu treino. Nunca se tornou um guerreiro de verdade, como todos da família são.
Aziel
bufou, descontente. Mais uma vez aquele assunto estava sendo trazido à tona.
Mais uma vez ele seria julgado por não conseguir desenvolver a técnica milenar
de sua família. Não importava se ele tinha uma mente brilhante, se era bom com
o cálculo, se sabia ler as runas Teéricas ou as Heéticas. A única coisa que
importava para seu pai, o grande senhor da família Orlin, era que o filho mais
velho era um fracasso, que não conseguira herdar o símbolo maior de poder de
sua família: a Loucura.
— Pai,
por favor — contestou Aziel. Ele estava sem ânimos para discussões, ainda
mais para uma que se desgastara pelo tanto de vezes que fora discutida. — Não estou
aqui para falar disso... — começou Aziel, sentindo a ira do pai crescer.
— Mas
está aqui! Você desobedeceu minhas ordens, voltou para casa sem minha permissão! — disse Asmon, dando um murro na mesa de se pondo de pé. — Eu te dei cinco
anos. CINCO ANOS! Sem falar em todo o dinheiro que gastei no seu treinamento.
Aziel
apenas olhou, impassível, enquanto seu pai esbraveja e xingava, externando sua
raiva. Era compreensível, na verdade, e Aziel sabia que tinha culpa, já que
nunca levara nada a sério em sua vida. Mas não era apenas esse o motivo pelo qual
não desenvolvera a Loucura; ele realmente tentara com afinco, mas não
conseguira de jeito algum, e isso o deixou frustrado. Logo ele desistiu do
treinamento, e se tornou um vagabundo aos olhos do pai. Por isso ele apenas
apoiou as têmporas nas mãos e ouviu, paciente. Quando seu pai havia terminado,
Aziel tirou as mãos do rosto e olhou para ele.
— Terminou?
— Você é
muito presunçoso, Aziel. Acha que pode retornar à uma casa de não é mais sua,
que pode entrar pela porta da frente e macular nosso piso com sua sujeira. Acha
que pode vir ao meu escritório e tomar meu Cramm... — o velho riu por entre os
dentes, com malícia no olhar. — Azhanor será um melhor anão do que você
qualquer dia será.
— Não
estou aqui para ouvir qualquer uma dessas coisas. Eu já falei por que vim:
haverá uma reunião entre os três líderes das famílias, e o senhor deverá
comparecer. Acontecera dentro de trinta minutos, mais ou menos.
Asmon
chacoalhou a cabeça, atordoado, como se tivesse levado um soco. Ele não tinha
prestado atenção nas palavras do filho antes, pois estava indignado com a
audácia do garoto, e agora as palavras do Aziel faziam sentido.
— Uma
reunião...? — murmurou.
— Sim.
Acontecerá dentro de alguns minutos.
Asmon
não sabia para que lado ir. Virou para a esquerda, mudou de ideia, e virou para
a direita. Ainda indeciso, virou para a esquerda novamente, mas interrompeu o
ato.
— Você
vem comigo, Aziel. – disse Asmon, apontando para o filho. — Talvez aprenda
alguma coisa.
O velho
Asmon, que não aparentava seus cento e setenta e sete anos já que sua barba e
seu cabelo continuavam castanhos, foi até um cabide no canto da sala com uma
velocidade impressionante para sua idade e retirou um grosso casaco de lã
pendurado num gancho. Passou o casaco por cima do colete marrom, pôs uma grossa
corrente de aço com o símbolo da família ao redor do pescoço e estava pronto
para a reunião.
— Deuses,
vocês da guarda se vestem como mendigos — reclamou, olhando para Aziel. — Ah,
não podemos fazer nada quanto a isso. Vamos.
Os dois
anões deixaram o escritório. Asmon fechou a porta e pôs a chave num dos
milhares de bolsos do grosso casaco. Andaram pelo corredor que levava até a
entrada e foram abordados pelo mordomo com cara de rato. Asmon gentilmente
enxotou o serviçal, que perguntava à que horas o jantar devia ser servido,
respondendo que ele talvez não voltasse naquele dia.
Os dois
anões subiram o último lance de escadas. Agora estavam no último andar daquele
prédio interno. Atrás deles havia uma grande sacada a céu aberto, com uma
pequena mureta para proteção; à frente havia uma lustrosa porta dupla de
carvalho, com runas Teéricas resplandecendo em dourado as palavras: Sala Real.
— Vamos — disse Asmon, empurrando as portas duplas.
A sala
era pequena: apenas uma longa mesa de madeira lustrosa e bem polida que ia de
um lado ao outro do cômodo, com cadeiras dispostas de cada lado. Uma típica
sala de reuniões, com exceção de que era a sala pessoal do rei.
— Asmon — exclamou um anão, sentado em uma cadeira de concreto estofada por almofadas
vermelhas e decorada por jóias raras, posicionada na ponta oposta da mesa. — E
vejo que traz seu filho consigo. Muito bem, podemos começar a reunião.
Sentem-se, por favor.
Asmon e
Aziel escolheram o canto esquerdo, onde havia duas cadeiras reservadas. Eles
foram os últimos a chegar, por isso passaram por lideres de famílias menores e
seus guarda-costas que haviam chegado com antecedência antes de se sentarem ao
lado de Uthrin Helfjar e seu protetor.
A
reunião havia começado, e, para anunciar isso, o anão sentado na cadeira da
ponta da mesa pigarreou, chamando a atenção de todos.
— Senhores — começou o anão sentado no cadeirão estofado. — Todos sabem muito bem por que
estamos aqui, não é? – ele olhou para todos, procurando algum sinal de
discordância, e o encontrou num anão no canto direito da sala.
— Perdão,
Senhor Ifthrin, mas não tenho certeza de porque estou aqui... — comentou um
anão recatado, sem barba, que ficara pálido por ter falado.
— Ora,
não se acanhe Gilderon — o anão do cadeirão disse. Sua voz condizia com sua
constituição grande e musculosa, e toda vez que ele falava, era como se um trovão
ribombasse na sala. — Tudo bem — disse ele, os olhos claros e inteligentes
analisando todos. — Acho que terei que repassar a história toda à vocês: bom, há
varias semanas que os humanos não honram nosso acordo, nosso tratado de paz.
Eles estão escondendo os mantimentos de nós. Estão os mantendo guardados para
si, enquanto nosso povo passa fome. Recebi a informação de Uthrin Helfjar — e
fez um gesto em direção à Uthrin — De que os humanos estão travando uma batalha
sangrenta contra Barath em seu próprio território — ele fez uma pausa,
avaliando todos os presentes com os olhos azuis semicerrados. — Senhores, acho
que todos aqui entendem o que devemos fazer, não é?
Os
lideres das famílias começaram a ficar inquietos. Cochichavam entre si e
olhavam para os lados, como se tramando algum plano maligno. Valars Ifthrin
apenas observava paciente, enquanto seus subordinados chegavam a uma decisão.
Uma a uma, as famílias menores foram declarando seu apoio à causa de Ifthrin,
até que não restaram nada mais do que os lideres das três maiores famílias da
Cidade Central. Markrand Yggdrar, que estivera quieto ouvindo tudo desde o
começo, explodiu de raiva após o último líder de família menor jurar lealdade à
Valars.
— Não
são as famílias menores que decidem o que tem que ser feito — ele se pôs de
pé. — Não são elas que edificaram essa cidade. Não são elas que mantem tudo
isso de pé! Vocês tem tanto direito de estar aqui quanto um ladrão tem de tirar
os bens de uma pessoa! — e esbofeteou a mesa. O rosto quadrado e naturalmente
de feições duras do anão estava vermelho de raiva.
— Mark,
acalme-se. Não há necessidade disso tudo...
— Ah,
mas há sim, Asmon. Esses malditos presunçosos acham que estão no direito de
decidir alguma coisa!
Os
líderes de famílias menores se sentiram constrangidos. De certa forma, Markrand
estava certo.
— Com
todo o respeito, Mark, mas eu mesmo os convoquei para estarem aqui hoje e por isso
não vou aceitar que os desrespeite enquanto forem meus hóspedes — disse Valars
Ifthrin calmamente, se levantando de seu cadeirão.
Markrand
olhou para o rei, e soube no mesmo momento a gravidade do fiasco que cometera. Só
a visão de Valars já era o suficiente para intimidar alguém, e, naquele
momento, Mark viu o outro anão exalar uma raiva gélida, fria como a morte, e
soube que não deveria falar mais nada. Lentamente voltou o corpo para a cadeira
e lá permaneceu, calado.
— Ótimo.
Mais alguém tem algo a dizer? — perguntou Valars, com uma expressão impassível
no rosto. — Então vamos continuar.
Ele fez
uma pausa, voltou para seu cadeirão de espaldar reto e se sentou.
— Acho
que é unanime a decisão de que devemos atacar os humanos. Vamos arrasar seus
reinos e tomaremos suas terras — e finalizou erguendo as mãos num ato
dramático. — Concordam comigo?
Todos
os presentes se exaltaram. Concordaram fervorosamente com a cabeça e
ovacionaram em alegria. Todos menos Aziel, que soube na mesma hora qual seria
seu destino. Mas ele não falou nada. Apenas assistiu, enquanto os presentes
entusiasticamente soltavam gritos para seu rei.
Eles
estavam embriagados pela ideia de terras em abundancia e comida em fartura, o
que significava riquezas além da compreensão para aqueles simplórios moradores
das montanhas. Os anões não davam importância às riquezas materiais, como o
ouro ou o diamante, encontrados em excesso em suas minas; para eles, pedras
preciosas não eram mais do que um símbolo, um sinal de que um anão tinha
condições de pagar por comida de qualidade. E eles, mais do que qualquer outro
povo, sabia que não se podia comer pedras preciosas. Não se podia preparar uma
sopa com rubis, não se podia fazer um guisado com esmeraldas ou safiras. Por
isso os anões, por muito tempo, travaram uma batalha sangrenta contra tudo e
contra todos. Eles queriam terras onde pudessem cultivar, queriam rios e lagos onde
pudessem saciar a sede. Queriam pastos onde pudessem criar animais. Mas tudo
lhes foi negado. Eles viviam em uma terra desolada, onde nada crescia, e, por
isso, foram à guerra. Por serem primitivos, selvagens e desunidos, foram
facilmente rechaçados por todos os povos contra quem lutaram, e em pouco tempo
estavam acuados de volta para sua montanha.
Mas a
sorte sorriu para os anões, e eles descobriram o quanto os humanos eram
gananciosos e superficiais. Descobriram o quanto eles amavam coisas materiais,
o quanto amavam as aparências, e o quanto faziam para impressionar os outros.
Os humanos , logo que descobriram as riquezas dos anões, ficaram loucos.
Queriam de qualquer jeito as pedras preciosas e brilhantes dos anões. Alguns
até mesmo cogitaram invadir a montanha, mas, no fim, foi feito um acordo que
dizia que os humanos forneceriam comida e os anões, joias e pedras preciosas.
Foi nessa época que se desenvolveu a Cidade Central e sua hierarquia cruel, já
que havia a necessidade de se controlar as minas com punho de ferro, para que
nada fosse roubado.
Por cem
anos, anões e humanos foram fiéis ao acordo, e não houve agressão vinda de
nenhum lado. Mas os anões se fortaleceram, e passaram a acreditar que eram
capazes de derrotar os humanos. Assim, foi formado um exército gigantesco, que
marchou até a Galádia. Foi uma dura e sangrenta guerra, onde houve desgraça
para ambos os lados. No final, os anões foram, mais uma vez, rechaçados. Eles
não contavam com a astucia dos humanos. Não contavam com suas fortalezas
inexpugnáveis de muros altos. Não contavam com os arqueiros e suas flechas
pontudas. Não contavam com as estratégias de guerra, nem com os mercenários que
os humanos puderam contratar devido à toda riqueza acumulada. No fim, não
contaram com nada, e mais uma vez mostraram sua incompetência em relação à
guerra. Mostraram que continuavam apenas bárbaros selvagens, rústicos.
Mas,
enfim, ali estava uma oportunidade única para o reino dos anões. Uma
oportunidade que certamente não podia ser deixada de lado, nem passar em
branco. Uma oportunidade que traria glória e prestígio aos anões, e Valars
sabia muito bem que deveria aproveitar.
Sentado
em seu cadeirão, ouvindo seus súditos ovacionando em aprovação, Valars soube
que tomara a decisão correta. Ele seria lembrado pelas eras vindouras como
aquele que salvara os anões da era das trevas, e os colocara num tempo de
glória e honra, consolidando de uma vez por todas a força e a determinação dos
anões.
— Então
está decidido — disse Valars. O rosto, bruto e cruel, era uma máscara
impassível que escondia o tanto quanto possível a excitação e o orgulho. — Iremos conquistar os humanos!
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